A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Academia Itinerarium XIV distinguida

A Academia Itinerarium XIV recebeu ontem, no âmbito das Jornadas Ecologistas Distritais d’ “Os Verdes” um “Girassol Alegre”, como reconhecimento pelo seu trabalho em prol da valorização do Paço Real da Ribeira de Muge.

Apesar de este não ser o único objeto de atenção da Academia, temos ao longo dos tempos promovido várias iniciativas neste espaço. Nenhum outro para nós se iguala, não tanto pelas questões estéticas, mas mais pelo alicerce identitário que nós, que somos antes de tudo gentes da Ribeira de Muge, aqui temos. Nada mais nos alegra que ver vir pessoas de Paço dos Negros ou de fora, para as nossas iniciativas e sentirem-se bem na nossa companhia neste espaço.

Assim, a Academia Itinerarium XIV agradece a distinção dada pel’ “Os Verdes”, prometendo tudo fazer para continuar a valorizar este espaço, e sobretudo para continuar, dentro das suas limitadas possibilidades, a elevar o nome, a história e a cultura das gentes da Ribeira de Muge. 




quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Diogo Vieira e Maria Nunes, um casal de moleiros?

Tendo por base o “Livro dos defuntos, dos baptizados e dos casados” da Freguesia de Santo António da Raposa, no período que medeia 1706-1741, ou seja, a quase totalidade da primeira metade do séc. XVIII, encontramos referência a uma série de indivíduos que aqui viviam, e que cuja constante repetição nos registos, sobretudo como “padrinhos” ou “testemunhas”. Hoje iremos deter-nos num casal: Diogo Vieira e Maria Nunes.  
Esquema genealógico de Diogo Vieira, construído através da tecnologia "My Heritage", com base nos assentos paroquiais. 

Diogo Vieira e Maria Nunes foram pais de seis crianças. De algumas temos o registo de óbito, doutros o de nascimento. Apenas de uma das filhas, Mariana (a segunda que teve com este nome), temos o assento de batismo e óbito. De destacar também o seu filho Martinho, que apesar de termos apenas o assento de óbito, (de 25 de novembro de 1736), neste vem mencionado que morreu com cerca de dois anos, pelo que poderemos deduzir que terá nascido em 1734. Dos seus filhos, apenas Maria, nascida em 1717, não temos assento de óbito. Terá chegado à idade adulta? Diogo Vieira irá morrer em a 8 de novembro de 1738, no Moinho da Raposa. Maria Nunes, voltará a casar, alguns meses depois, com Jorge Coelho, natural de Malaqueijo (atualmente pertencente ao concelho de Rio Maior). 

Para além destes assentos, que nos permitem reconstituir um pouco a vida familiar deste casal, existem vários outros, que nos permitem reconstituir um pouco da sua influência social. Com efeito, Diogo Vieira é testemunha em 10 casamentos (no total de 79 que abarca o período do livro em questão). O casal é padrinho de oito crianças e Maria Nunes é madrinha, sem o marido, de mais três crianças.

Em relação aos casamentos, poderá justificar-se um tão grande “apadrinhamento” de Diogo Vieira pelo facto de saber assinar, e possivelmente ser das poucas pessoas que o sabia fazer na altura? Seria obrigatório que as testemunhas de casamento soubessem assinar? Quanto aos batismos, mais do que analisar de quem foi padrinho (e não o foi de dois irmãos – todos os seus afilhados têm origens diversas), poderemos ver a sua importância por quem foi padrinho dos seus filhos. Com efeito, da sua filha Mariana, batizada em 1720 foram padrinhos o próprio Pároco, o padre Pedro de Barros, juntamente com Leonarda Maria, de quem falamos aqui. Aliás, Leonarda Maria já houvera sido madrinha em 1717 da sua filha Maria. As relações entre o casal Diogo Vieira e Maria Nunes e a família de Leonarda Maria não eram unidirecionais, uma vez que Maria Nunes foi madrinha em 1714 de Manuel, filho de Leonarda Maria, e Diogo Vieira será testemunha de casamento de um outro filho de Leonarda, José Marques. Qual o vínculo entre estas duas famílias? Diogo Vieira e Maria Nunes foram moradores no Moinho da Ponte Velha entre 1713 e 1720 pelo menos. Moinho este que pertencia a Leonarda Maria. Cremos poder afirmar que a relação ia além do “patrões-empregados”, mas até onde, não o sabemos.

Cabe ainda referência a um outro assento de óbito digno de nota. Trata-se do filho de Gesuína de Jesus, uma mãe solteira, que vivia em casa de Diogo Vieira, segundo o que diz o assento. Seria uma criada ou uma familiar?
Moinho da Ponte Velha, em 2010.

Quanto aos locais em que viveram Diogo Vieira e Maria Nunes, em 29 assentos, doze mencionam o local onde viviam. Se entre 1713-1720 viveram no Moinho da Ponte Velha (ainda que exista um registo que alude simplesmente à Ponte Velha), de 1721 até à morte de Diogo Vieira (1738), viveram no Moinho da Raposa, ainda que surja em dois assentos (1727, 1728) simplesmente Raposa. Já no assento do segundo casamento de Maria Nunes, menciona que o casal houvera vivido no Moinho da Várzea Redonda (que curiosamente também era propriedade de Leonarda Maria).

Os erros dos párocos nestes assentos são frequentes. À distância de 300 anos, conseguimos encontrar alguns, pelo que muitos mais haverá. Será a ausência da designação de “moinho” um simples esquecimento do padre? E seria a referência ao Moinho da Várzea Redonda uma confusão com o Moinho da Ponte Velha, onde Diogo Vieira efetivamente viveu, por serem do mesmo proprietário?

Contudo, o facto principal e que mais salta à vista é o facto de Diogo Vieira e Maria Nunes terem vivido em moinhos. Seriam um casal de moleiros? Este é um facto que não nos deixa de intrigar, na medida em que a vida num moinho não seria confortável, visto que será sempre um sítio húmido, com muita poeira e barulhento. Pouco confortável e pouco salubre. Talvez apenas a profissionalização/especialização no ofício (que tinha regimentos vindos do século XVII) possa justificar esta residência sempre em moinhos.  

Fonte:
(1706-1741). Livro dos defuntos, dos baptizados e dos casados – Raposa (Sto. António). 

domingo, 19 de outubro de 2014

Os escravos na Ribeira de Muge no séc. XVIII

Já por várias vezes abordamos esta temática, nomeadamente aqui. Contudo, ao debruçar-nos sobre os registos paroquiais entre 1706 e 1741 da Paróquia de Santo António da Raposa, urge perceber mais a fundo esta questão no início do séc. XVIII. Encontramos duas autoras que cruzam a  temática dos registos paroquias com a escravatura.

Apesar de se reportar no seu trabalho ao século anterior (XVII), Mesquita (2005) alude às Ordenações Manuelinas, que tornaram obrigatório o batismo dos escravos pelos seus senhores, sob pena de os perderem para quem os acusasse. A salvação da alma dos escravos, segundo a autora, era obrigação dos senhores para com os seus cativos. Os prazos variavam conforme a idade dos escravos, indo de um mês (se o servo tivesse dez ou menos anos) a seis meses (se tivesse mais que dez anos). Aos escravos nascidos em casa do senhor, aplicava-se o mesmo que se aplicava às restantes crianças (primeiros oito dias após o nascimento).

Quanto aos assentos em si, segundo Mesquita (2005) e Godinho (2007), mencionavam para além do vinha estipulado ser assentado, a condição de escravos dos pais, a cor da pele, a naturalidade do escravo e o nome do senhor a quem pertenciam. Contudo, era comum a existência de filhos de uma escrava e de um homem livre, por exemplo. Da mesma forma, aparecem casamentos entre livres e escravos. Sobre o casamento, cabe a nota que a Igreja defendia que os escravos, quando viviam amancebados, deveriam os seus senhores deixá-los casar. Todavia, esta norma não era muito tida em consideração, pelo que o número de filhos ilegítimos entre escravos era bastante grande.

Era comum serem libertos os escravos em testamento pelos seus senhores (sendo-lhe dada “alforria”), ou até ainda em vida destes. Contudo, acompanhava-os sempre nos registos a designação de “escravo forro de [nome do senhor]”. Era igualmente comum, sobretudo nas situações em que se estreitava a relação entre servo e senhor, a utilização dos apelidos deste último pelo primeiro.  

Sabemos que a escravatura só irá ser abolida no reinado de D. José (1750-1777), pelo que não será de estranhar a existência de escravos na Paróquia de Santo António da Raposa. Contudo, no primeiro livro de assentos desta paróquia, que media, como referimos, o período de 1706-1741 (quase quarenta anos), apenas encontramos um registo relativo a um escravo, que passamos a transcrever:

Aos dezasseis dias do mês de Dezembro de mil setecentos e dezanove faleceu desta vida presente Pedro Tinoco escravo de Leonarda Maria moradora na Vargea Redonda, e morreu se[m] sacramentos por ser morte súbita; esta enterrado ao pé do caminho na cepultura que [xxxxxxxx] sobre dita de que fiz este assento era supra.

Assento do óbito de Pedro Tinoco, única referência a um escravos nos registos paroquiais de Santo António da Raposa entre 1706 e 1741.

À semelhança do que acontece com a maioria dos assentos, também o deste escravo tem menos dados do que os de outras paróquias. Com efeito, não sabemos a sua cor da pele (seria negro, mulato?) nem a sua naturalidade (teria vindo de qualquer colónia africana, ou já teria nascido na Ribeira de Muge ou em qualquer outro ponto do país?)

Contudo, não deixa de ser estranho que este seja o único registo relativo a um escravo. Sabemos que os escravos aqui estiverem presentes desde o século XVI, com a construção do Paço Real da Ribeira de Muge, e parece-nos de todo razoável que aqui vivessem escravos ainda, ou os descendestes destes. Posto isto, poderemos justificar esta ausência de duas formas:

1. Tendo paço uma capela, teria esta um livro de assentos próprio, sendo neste registado os assentos relativos aos escravos? (ou o Convento da Serra, que detinha a responsabilidade de ali efetuar as cerimónias litúrgicas). Desta forma, os registos que caíam no livro da paroquial da Raposa relativos ao “Passos Negros” seriam os batismos e sepultamentos realizados pelo padre da paróquia na igreja paroquial?

2. Conforme aventa Evangelista (2011), seria possível que os escravos ainda no séc. XVI começassem a adquirir direito de alforria por casamento com brancos? Desta forma, no séc. XVIII já não existiriam “forros” nem pretos, mas apenas mulatos, mais claros de geração para geração, pelo que não justificaria esta referência no assento.

Não sabemos se é alguma destas razões que está na base da ausência da menção de escravos nos assentos da Paróquia de Santo António da Raposa. Contudo, cremos ter levantando questões pertinentes. 


Bibliografia
EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.
GODINHO, Anabela da Silva de Deus (2007). Lisboa Pré-Pombalina: A Freguesia da Sé – Demografia e Sociedade (1563-1755). Tese de Doutoramento apresentada ao ISCTE.

MESQUITA, Maria Hermínia Morais (2005). “Escravos em Angra no século XVII: uma abordagem a partir dos registos paroquiais”, in Arquipélago – História, 2.ª Série, IX. S/l: Ed. Universidade dos Açores. 

sábado, 18 de outubro de 2014

Os Azulejos do Paço Real da Ribeira de Muge – nos 500 anos da sua conclusão

O azulejo é um elemento que nos chega por herança árabe. Surge na segunda metade do séc. XV dois tipos de azulejos, que foram designados por “mudéjares” ou “hispano-mouriscos”, devido à sua origem no Reino de Granada, último reduto árabe na Península Ibérica. Foram produzidos em várias cidades andaluzes, com especial destaque para Sevilha e Málaga. O primeiro tipo designa-se por azulejo de corda seca, em que “os desenhos eram limitados por sulcos preenchidos com uma mistura de óleo de linhaça e manganês que, após a cozedura, funcionavam como uma barreira que impedia a separação das cores” (Santos, 2009: 19). Já nos azulejos de arestas “o isolamento das cores era obtido por arestas salientes, moldadas no próprio barro antes da cozedura” (idem). As primeiras aplicações em Portugal foram feitas no início do séc. XVI, com azulejos hispano-mouriscos importados de Sevilha. A este facto não terá sido estranha a visita de D. Manuel I à Alhambra, em Granada, onde terá contactado com este tipo de revestimento.

Azulejo do tipo "Corda Seca" originário do Paço Real da Ribeira de Muge.
Em exposição no Museu Municipal de Almeirim.

Azulejo do tipo "Aresta" originário do Paço Real da Ribeira de Muge.
Em exposição no Museu Municipal de Almeirim.

Sendo construído no início do séc. XVI, foi com toda a certeza profusamente decorado o Paço Real da Ribeira de Muge com estes azulejos. Contudo, não chegaram aos nossos dias. Com efeito, quando Vasconcellos (1926), visita este local relata que já existiam poucos, existindo ainda um banco revestido deles. Levou alguns para o Museu do Carmo, oferta de Manuel Francisco Fidalgo, à época proprietário do paço. Evangelista (2011), alude à possibilidade dos azulejos que se encontram na exposição do Museu Arqueológico do Carmo, identificados com “proveniência desconhecida”, serem originários daqui.




O dito banco que Frazão de Vasconcellos menciona ainda hoje existe, e é o das fotos acima. Está revestido na sua grande maioria por azulejos com um padrão verde, azul e amarelo. Tem outros azulejos que cremos terem-lhe sido adicionados posteriormente. Para além destes, existem ainda mais alguns, muito fragmentados espalhados em alguns bancos exteriores. Da mesma forma, podemos encontrar seis exemplares praticamente intactos na exposição do Museu Municipal de Almeirim.


Banco no complexo das ruínas do Paço que apesar de já praticamente desprovido de azulejos, ainda tem alguns resistentes bocados a cobri-lo, como o do pormenor da segunda imagem. 

Bibliografia: 
EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.
SANTOS, Hugo Miguel Aguiar (2009). Azulejo não é crime! Prova final de licenciatura apresentada ao departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra.
VASCONCELLOS, Frazão de (1926). “O Paço dos Negros da Ribeira de Muge e os seus almoxarifes”, separata da publicação Brasões e Genealogias. Lisboa: Tipografia do Comércio.

http://embuscadopatrimonio.blogspot.pt/2014/04/contemplo-estas-ruinas-seculares-restos.html#gpluscomments


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Registos Paroquiais e a Paróquia de Santo António da Raposa

Os assentos paroquiais em Portugal datam do séc. XIV, quando em 1352 D. Afonso IV ordena em carta enviada aos bispos portugueses que os recebimentos (casamentos) fossem arrolados perante tabelião e registados em livro. Já em 1536, no Sínodo de Lisboa, é publicada a Constituição do Arcebispo de Lisboa (ao qual a Paróquia de Santo António da Raposa pertencia), onde ser prevê que em cada paróquia se registasse os óbitos e os batismos num livro (o mesmo, mas em duas partes diferentes). 

Em 1563, no Concílio de Trento, estende-se a todo o mundo católico a obrigatoriedade de registar todos os casamentos e batismos. Contudo, nem todos o fizeram de imediato. Em 1614 o Papa Paulo V torna obrigatório o registo dos óbitos. Em maio de 1640 determina-se que cada igreja do Arcebispado de Lisboa tivesse os livros determinados pelo concílio.

Quanto à paróquia de Santo António da Raposa, que aqui nos interessa, só temos conhecimento do seu primeiro livro de registos iniciado em 1706. Se já existiam anteriormente as obrigações de proceder a esses registos, porque razão tal não era feito? Será que não existia paróquia? Será que por ser isolada, estas “normas” foram sendo ignoradas, por incúria, por desleixo ou simplesmente por falta de informação? (a paróquia da Sé, em Lisboa, pertença do mesmo arcebispado, iniciou os registos de batismo e de óbito no ano de 1563).

O que é facto é que o primeiro registo, datado de 1706, é um óbito. O Padre era Frei Damião da Serra, religioso no Convento de Nossa Senhora da Serra. Contudo, os batismos e casamentos passam a surgir apenas a partir de 1711, quando passam a ser os assentos feitos pelo Padre Cura Manuel Ribeiro.
Igreja Paroquial de Santo António da Raposa.

Posto isto, podemos interrogar-nos: justificará esta ausência de registos anterior ao início do séc. XVIII a inexistência da paróquia, tendo sido apenas criada nesta altura? Esta paróquia já surge na “Corografia Portuguesa” do séc. XVII, da autoria do Padre António de Carvalho, como tendo 29 vizinhos. Ter-se-á iniciado um qualquer procedimento de criação da paróquia, tendo ficado pendente de alguma oficialização? Poderá ser, e estamos a entrar apenas no campo da suposição, a inexistência da igreja paroquial? Se assim fosse, esta teria sido acabada de construir em 1706, e o período decorrente entre 1706 e 1711, assumido por Frei Damião da Serra, foram apenas assentados os óbitos? (até porque os corpos eram sepultados no interior da igreja, por norma, e o assento diz o local da igreja onde foi feita a sepultura. Contudo, existem exceções, pois há assentos que mencionam enterramentos noutras paróquias ou no Convento da Serra).

Contudo, sabemos que para além da paroquial, existiam mais dois locais de culto cristão na paróquia. O primeiro seria a igreja do já falado Convento de Nossa Senhora da Serra da Ordem dos Pregadores (Dominicanos), de onde era originário Frei Damião. O outro seria a Capela de S. João Baptista dos “Passos Negros”. Teriam estes dois locais de culto livros de registos próprios, tendo-se perdido entre mudanças de donos e as convulsões políticas do início do séc. XIX? Ou teria pelo menos o Convento da Serra, visto que eram estes padres responsáveis pela Capela do Paço, como mencionamos aqui. Apesar disto, há uma questão que não podemos deixar de evidenciar: apesar de pontualmente, são mencionados assentos fora da igreja paroquial, nomeadamente casamentos na “Ermida de S. João dos Passos Negros”, em 1715, 1716 e 1719, assim como no Convento da Serra (1722). Nesta última casa foram também assentes três óbitos relativos a sepulturas que aí foram feitas (1706, 1715 e 1727). 

Posto isto, e apesar de todas as interrogações que isso nos possa causar sobre o que está para trás, o que é facto é que os registos começaram a ser contínuos a partir de 1711. Sobretudo com a entrada do Padre Cura Manuel Ribeiro, assumem uma maior uniformidade de acordo com o estabelecido pelo Concílio de Trento, em 1563.

Bibliografia e outras fontes:
ARQUIVO Nacional da Torre do Tombo (em linha). http://antt.dglab.gov.pt/
CARVALHO, António de (s.XVII). “Termo da Vila de Santarém”, Corografia Portuguesa.
FELIX, Rafael Fernandes, FARIA, Fernanda, SANTOS, Maribel Yasmina e HENRIQUES, Pedro Rangel (2002). “XML na demografia histórica : anotação de registos paroquiais”, in: Conferência da Associação Portuguesa de Sistemas e de Informação – Actas, n.º 3. Coimbra: APSI. 
GODINHO, Anabela da Silva de Deus (2007). Lisboa Pré-Pombalina: A Freguesia da Sé – Demografia e Sociedade (1563-1755). Tese de Doutoramento apresentada ao ISCTE.

Texto de Samuel Tomé.
Fotografia de Manuel Evangelista.

domingo, 7 de setembro de 2014

O Rei Preto

Com a devida vénia ao blog "Em busca do património", de Samuel Tomé.

É talvez a mais emblemática figura de Paço dos Negros, na qual se  pode alicerçar a identidade desta comunidade. É a matriz comum às pessoas que aqui vivem, e que são descendentes dos escravos que para aqui vieram morar, miscigenados com os brancos. Foi já esta figura alvo de uma homenagem por Evangelista (2013), onde reúne em livro os factos históricos, as memórias orais e uma crítica social. Entrando no domínio da lenda e da cultura popular, há duas versões distintas da história do Rei Preto.
A primeira chega-nos pelo Conde da Atalaia, quando no final do séc. XIX dizia ao seu caseiro do paço que “este lugar não tem história daqui para trás, só daqui para a frente. Porque foi feito para abafar um escândalo muito grande”. Este escândalo estava ligado a um neto bastardo do rei, que seria filho de uma princesa sua filha e de um escravo negro que a houvera engravidado. Assim, o monarca mandou construir este paço, isolado no meio da charneca entre Almeirim e Coruche, para aqui ficar degradado o seu neto preto e o seu pai, porque se tinha de abafar o escândalo.

O Rei Preto nas comemorações dos 500 anos do Paço Real da Ribeira de Muge (2011)

Uma outra versão diz-nos que nos escravos que para aqui vieram, veio um que era muito mau e muito ladino. Era filho do rei lá na sua terra, em África, e aqui tinha regalias especiais, devido a essa mesma filiação. Ficou de tal forma esta figura incrementada nas memórias populares, que é recorrente ser apelidado qualquer rapaz mais travesso e moreno como “rei preto”.

Tendo a lenda presente, e indo de encontro aos factos, não menciona a documentação da época nenhuma alusão a um neto bastardo do rei preto, nem tão pouco a um escravo que era filho de um rei em África. Contudo, encontramos várias alusões a negro que são tratados de forma preferencial em relação aos demais, e que muitas vezes nem têm o estatuto de escravos.

Num documento de 1528, citado e analisado por Vasconcellos (1926) e Evangelista (2011), é mencionado um escravo para além dos outros, que receberia à parte 2$580 (enquanto os demais tinham 42$650 para cerca de 30 almas). Segundo Evangelista (2011), é possível que este outro fosse Fernão Frade, que mencionamos aqui. Ainda este mesmo documento alude a uma outra distinção: atribuiu ao almoxarife 2$580 para mantimento, vestir e calçar uma preta, com a qual casou o preto Diogo Lopes.

Seria algum destes três (Fernão Frade, Diogo Lopes ou a sua mulher), o famoso Rei Preto? Não o poderemos afirmar, contudo, é bem de salientar o seu tratamento preferencial, em relação aos demais. Por fim, convém salientar que Fernão Frade, como Evangelista (2011) menciona, é o preto responsável pela capela do Paço Real da Ribeira de Muge.

Bibliografia e fontes:

EVANGELISTA, Manuel (2004). Lendas da Ribeira de Muge. S/l: Edição Junta de Freguesia de Fazendas de Almeirim e Junta de Freguesia da Raposa.

EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.

EVANGELISTA, Manuel (2013). Contos do Rei Preto. S/l: Edição do autor.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Leonarda Maria, uma proprietária na Ribeira de Muge da primeira metade do séc. XVIII

Como seria a Ribeira de Muge na primeira metade do séc. XVIII? Quantas pessoas aqui viveriam e em que condições? O que faziam? O fausto da presença da corte já se tinha perdido. Contudo, a coroa continuava a ser proprietária da Coutada da Ribeira de Muge, e o almoxarifado continuava a ter sede no Paço Real da Ribeira de Muge, agora chamado “Passos dos Negros”, apesar do almoxarife já não estar obrigado a residir no paço. Ao analisar os registos paroquiais da época encontramos algumas personalidades sucessivamente referidas, o que nos faz concluir que teriam aqui alguma importância. Hoje iremos deter-nos numa delas.
Moinho da Várzea Redonda, na atualidade. Leonarda Maria foi sua proprietária na primeira metade do séc. XVIII.

Leonarda Maria é nomeada várias vezes entre 1713 e 1728, como sendo moradora ora na Várzea Redonda ora no Moinho da Várzea Redonda. É comum aparecer nos registos paroquiais a diferença entre uma coisa e outra. A primeira menção que temos conhecimento é o batismo de sua filha, Isabel, a 19 de agosto de 1712. Foram padrinhos Josefa Maria de Seixas e Paulo Soares da Mota, moradores na Vila de Almeirim e sendo ele almoxarife do Paço Real da Ribeira de Muge.
 
Em 29 de outubro de 1713 Leonarda Maria fica viúva. O seu marido, José Marques, morre com todos os sacramentos e é sepultado no canto nascente do altar da Igreja Paroquial de Santo António da Raposa. Deixa um testamento onde lega à sua mulher a Ponte Velha. A cinco de maio do ano seguinte é batizado outro filho de ambos, Manuel, sendo padrinhos Manuel Lopes e Maria Nunes. Sendo os batismos feitos em crianças, podemos supor que Leonarda Maria seria ainda uma mulher nova e que ficou viúva relativamente jovem.
 
De 22 de agosto de 1716 temos conhecimento de uma provisão, onde Leonarda Maria pede para cultivar umas bicadas de terreno junto a um moinho que possuía na Ribeira de Muge. É invocado nesta que tal coisa era prática pelos donos dos outros moinhos vizinhos. Não sabemos ao certo a que moinho se referia a dita provisão, atendendo a que Leonarda Maria possuía dois moinhos (o da Várzea Redonda e o da Ponte Velha). Para além destes, entre o “Passo dos Negros” e a Raposa (sede paroquial), existiam à época os moinhos de Paulo Soares da Mota, do Pinheiro, da Parreira e da Raposa.
 
Data de 31 de maio de 1718 uma escritura de emprazamento onde Leonarda Maria apresenta um pedido à coroa para renovação do aforamento do Moinho da Ponte Velha. Seria possivelmente esta situação despoletada pela morte do seu marido, José Marques, cinco anos antes? Temos de ter presente que os aforamentos se faziam em três vidas, renováveis. Seria a de José Marques a terceira? É referido que o aforamento, em três vidas, contaria como sendo Leonarda Maria a primeira. Esta faz ainda um pedido para lhe ser baixado o foro (15 alqueires de trigo e 15 alqueires de cevada), pois o moinho, com três casais de mós, encontrava-se degradado.
 
No ano seguinte, morre um escravo que Leonarda Maria possuía – Pedro Tinoco, de morte súbita. É sepultado no corredor da igreja paroquial. Dos anos seguintes, temos conhecimento de quatro batismos em que Leonarda Maria é madrinha, a saber:
 
- Mariana, filha de Diogo Vieira e Maria Nunes, moradores no Moinho da Ponte Velha, a 14 de janeiro de 1720.
- Leonarda, filha de Pedro Fernandes e Josefa Maria, moradores no Moinho da Várzea Redonda, a 12 de janeiro de 1721. Foi madrinha com João Luís.
- Antónia, filha de Pedro Fernandes e de Josefa Maria, moradores na Várzea Redonda, a 15 de novembro de 1722. Foi madrinha com João Vaz.
- Ana, filha de Domingos Martins e Maria da Silva, moradores no Moinho da Várzea Redonda, a 26 de julho de 1723. Foi madrinha com o seu filho, José Marques.
 
A 24 de julho de 1727, morre Leonarda Maria, na Várzea Redonda. É sepultada no n.º 7 da Igreja Paroquial de Santo António da Raposa. No ano seguinte casarão dois dos seus filhos. Isabel Maria (a ser a mesma Isabel que é batizada em 1712, teria cerca de 17 anos), a 1 de julho, com António Costa, de Alpiarça, assim como as testemunhas do casamento. A 24 de agosto casa José Marques, com Tomásia Dias (de Torres Novas). São testemunhas deste casamento Diogo Vieira (morador na Raposa) e Luís Dias (morador na Várzea Redonda). Estes dois estabeleceram relações de algum modo com a família de Leonarda Maria, tendo em conta que viveram nas suas propriedades. Desconhecemos contudo os vínculos que lhe tinham.
 
Por fim, podemos inquirir-nos: como se pode inserir Leonarda Maria na sociedade do séc. XVIII? Temos evidências bastantes para concluir que não era uma simples mulher camponesa. Contudo, cremos ser excessivo poder considera-la uma pequena fidalga ou até burguesa (este seria o caso dos Soares da Mota, que viviam na Vila de Almeirim, e não no meio da charneca).
 
Cremos ser possível que Leonarda Maria seria ao século XVIII aquilo que no século XX se chamou “uma lavradora”. O seu marido fez testamento, o que não era muito comum à época, segundo os registos paroquiais. Trazia aforadas duas propriedades, nas quais viviam várias famílias. Com efeito, entre 1717 e 1727 há nos registos paroquiais três agregados diferentes no Moinho da Ponte Velha e nove no Moinho da Várzea Redonda. Para além disto, temos ainda de ter presente que Leonarda Maria é chamada a ser madrinha de quatro crianças de pessoas que viviam nas suas propriedades.
 
Por outro lado, e tendo presente que Leonarda Maria terá ficado viúva relativamente nova (tinha filhos que ainda nem sequer eram batizados), podemos perguntar-nos a razão pela qual não terá voltado a casar. Com efeito, é comum encontrarmos registos de viúvos que voltam a casar. Contudo, Leonarda Maria não o faz. Será que ao casar esta perderia direito às propriedades que tinha, passado estas para alçada do seu marido?
 
Fontes documentais e bibliográficas:
(1706-1741). Livro dos defuntos, dos baptizados e dos casados – Raposa (Sto. António).
(1716). “Leonarda Maria, Provisão”, Chancelaria de D. João V, livro 46, folhas 318v a 319v.
(1717). “Leonarda Maria, Carta de Emprazamento”, Chancelaria de D. João V, livro ??, folhas 347 e 347v.

EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge – A Tacubis Romana. S/l: Ed. de autor. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Academia Itinerarium XIV traz à cena “Candonga” Lar de S. José



A “Candonga”, peça de teatro escrita e encenada pela Academia Itinerarium XIV, celebra o sofrimento do povo quando o Estado Novo impôs um racionamento de géneros, como o arroz e a farinha (entre outros), enviando grande parte destes para a Espanha (durante a Guerra Civil) e a Alemanha Nazi (durante a 2.ª Guerra Mundial), votando os portugueses à fome de um pão racionado que não chegava para todos. “Candonga” quer dizer “contrabando de géneros alimentares”. Foi isso que aconteceu em Paço dos Negros, e por toda a Ribeira de Muge: os moinhos, proibidos de trabalhar, contrabandeavam a produção de farinha e o descasque de arroz que cada um ia conseguindo roubar, mas sempre pela calada da noite. Às cinco da manhã tudo, teria de estar limpo, como se nada se tivesse passado.


“Candonga” passa-se numa noite deste tempo. Um rude casal de moleiros vai recebendo os seus fregueses, que aí se dirigem para comprar os géneros contrabandeados ou já levam aqueles que conseguiram ocultar da fiscalização. Baseada em pequenos episódios relatados pelas pessoas que viveram estes tempos, esta peça, apesar do humor que a ponteia, pretende ser sobretudo um tributo e um contributo à memória destes tempos, para que desta forma este património imaterial não se perca.



Esta peça foi criada de propósito para a comemoração do Dia Nacional dos Moinhos, em Abril passado, tendo sido encenada no Moinho do Fidalgo. O convite por parte da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim para a sua realização no Dia dos Avós, para os avós que viveram estes tempos, muito orgulha a Academia, que assim vai cumprindo o seu papel de divulgação do património da Ribeira de Muge, nas suas mais variadas vertentes. Cremos ter cumprido o nosso papel, pois os avós, no final, perguntaram por mais. 

 
 
Fotos e vídeo Jornal "O Almeirinense"

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Dia Prodigioso





Peça de teatro protagonizada pelos elementos da academia, apresentada no dia 10 de junho. É a história de um militar chamado para a Guerra Colonial e as angústia de uma família. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

S. João Baptista, o primeiro patrono de Paço dos Negros.

Sendo hoje o dia de S. João Baptista, e sendo ele o patrono da capela do Paço Real da Ribeira de Muge, parece-nos ser o dia ideal para apresentar este tema no empreendimento anual que fizemos sobre o paço. Tendo a religião uma forte presença no dia-a-dia do séc. XVI, e sendo os monarcas portugueses extremamente religiosos, faz todo o sentido que a construção de um paço previsse a existência de um templo religioso.
  

São João Baptista, no altar-mor da Igreja Paroquial de Almeirim.
Escultura atribuída a Machado de Castro.

O primeiro capelão que temos conhecimento foi o frade franciscano da Ordem Terceira, Diogo Pacheco, datando de 1532 o pedido ao papa por D. João III para que este servisse na “capelania da capela dos meus paços da Ribeira de Muge”. Este pedido menciona que o rei estava “de sua bondade bem enformado e por os vezinhos dali d’aredor estarem dele e de seu serviço contentes”. Poderá esta afirmação querer dizer que este religioso já exercia o cargo, tratando-se o pedido apenas de uma oficialização?

A 2 de setembro de 1551 foi nomeado para o cargo de capelão António Valente, clérigo de missa, residente em Santarém. Este teria de dizer missa na “capela dos Paços da ribeira de Muja” aos “domingos e festas do ano somente, e todas as outras missas que nela for obrigado a dizer, dirá nesta vila de Almeirim”. Não tinha este obrigação de viver no paço, e tinha como ordenado seis mil reais, três moios de trigo, um tonel de vinho e quatrocentos reais para palha. A nomeação de António Valente foi em substituição de Frei Pedro Mora, que falecera. Teria existido algum outro capelão entre este Frei Pedro Mora e Diogo Pacheco?


Edifício conhecido como “Escolas Velhas”, onde existiu a Igreja do Divino Espírito Santo da Ordem Terceira de S. Francisco.

Sabemos que em Almeirim existia, desde 1527, uma Igreja e um Hospital dedicados a Nossa Senhora da Conceição, ligados à Igreja do Divino Espírito Santo, sede da Ordem Terceira de Francisco. Não seria estranho se Diogo Pacheco estivesse ligado a esta instituição, sendo por isso normal a sua nomeação para capelão da capela do paço em 1532. Já Frei Pedro de Mora, é mencionado num recibo de uma tença em 1525 como prior do Convento de Nossa Senhora da Serra. Quanto a António Valente, podemos levantar algumas interrogações. Seria também um frade do Convento da Serra? Ou a ausência da sua designação como “frei”, relevaria que pertencia ao clero regular? Com efeito, a sua nomeação diz que era “clérigo de missa, morador da vila de Santarém”, não aludindo a qualquer casa monástica ou conventual.

O que é facto é que a partir do dia de S. João Baptista (24 de junho) de 1560, passava a capela do Paço Real da Ribeira de Muge para os frades. O Alvará menciona que tal acontece por falecimento do capelão, António Valente. Passavam estes a receber o mesmo valor em géneros e dinheiro que recebia António Valente, mediante uma certidão do almoxarife do paço, em como efetuavam os serviços para os quais eram nomeados. Estabelece-se a partir daqui uma relação entre estas duas casas, que falamos aqui.


Pórtico do Convento da Serra, único vestígio arquitetónico subsistente desta casa conventual no lugar onde ela se ergueu.

Os documentos encontrados por Evangelista (2011) aludem a duas capelas neste espaço. Uma, de invocação de S. João Baptista (mencionada em 1758 e 1764) e a Real Capela de Nossa Senhora da Graça (aludida em 1749). O autor aventa que a primeira capela seria de utilização pública, para as celebrações religiosas e que aí assistiriam não só os residentes no paço como também as populações que vivessem nas cercanias (o que pode ser corroborado pelo facto de o pedido de súplica para Diogo Pacheco mencionar que a população estava contente com ele). A outra seria de uso privativo dos monarcas, e as cerimónias aí realizadas seriam de validos próximos a estes. Noutros documentos aparece apenas a referência à “capela [ou ermida] de Paço dos Negros” ou então “Real Capela de Paço dos Negros”, sendo que, com a ausência de invocação, se deduz que a adjetivação de “real” se refere à Capela de Nossa Senhora da Graça.

Tendo presente esta linha de pensamento, pode inferir-se que o edifício que chegou aos nossos dias no complexo do paço será a Capela de S. João Baptista, pela feição que tem, marcadamente pública, isto é, aberta a todos. Ficou registada a memória de ainda ter funcionado, ainda que esporadicamente, em ofícios religiosos, até à segunda metade do séc. XIX. Desta forma, podemos levantar a questão: onde ficaria a Real Capela de Nossa Senhora da Graça? Dela já se perdeu a memória. Sendo uma capela de cariz privativo e particular (quem sabe, até pouco mais que um pequeno aposento adornado com um oratório, ainda que ricamente decorado), ficaria na parte residencial do paço, precisamente aquela que desapareceu e que aludimos aqui


Reconstituição do interior do paço, com o enquadramento da capela.
Aguarela de Maria Nélia Castelo.

A Capela de São João Baptista é um edifício de uma só nave, com telhado de duas águas. Estaria inserida no alpendre existente na frente daquela parte do paço, que arrancando da parede do pórtico, faria um L no pátio. Na fachada principal tem uma janela gradeada, alinhada com a porta. A porta tem a soleira em cantaria, ainda que sem decorações de relevo, ou pelo menos estas não chegaram aos nossos dias. O edifício tem ainda à direita da porta um contraforte arredondado. Teria sido adicionado aquando da demolição do alpendre, para reforço da estabilidade do edifício? Antes de ter sido rebocada, era visível acima da porta um buraco. Há memórias que acima da porta da capela existia uma pomba em pedra. Seria uma invocação do Espírito Santo, nesta capela? Ou seria o buraco simplesmente originário do arranque de uma trave do alpendre?


Interior da Capela de S. João Baptista, em 2009.

 Exterior da capela, em 2006. É visível o buraco por cima da porta.

A capela foi dessacralizada no final do séc. XIX ou início do séc. XX. Sabemos que teve anos a fio a função de celeiro do moinho, sendo que, por essa razão, levou entaipada a porta da frente e passou a ser utilizada a porta das traseiras. Não sabemos se essa mesma porta foi apenas rasgada nessa altura, ou se já existia. Parece contudo estranho que, sendo rasgada nessa altura, levasse uma abóbada em tijoleira como tem. De estranhar igualmente o nicho existente junto a esta porta, entaipado, mas abobadado.


Capela em 2002, onde é visível a porta entaipada. 


Fachada traseira da capela, em 2006. Porta possivelmente rasgada no início do séc. XX. É visível o nicho entaipado à direita.


Nicho entaipado, após ter sido rebocado.

Bibliografia
(1532). Carta de D. João III ao Doutor Brás Neto. Pag. 716-720, 2013. XI, 8-19.
CASTELO, Maria Nélia (2012). O Palácio Manuelino da Ribeira de Muge, trabalho de âmbito académico do seminário em Itinerários e Paradigmas Monumentais.
CLÁUDIO, António (2005). “As Escolas Velhas”, Conhecer Almeirim, vol. 2. S/l: Ed. Câmara Municipal de Almeirim.
EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.



sábado, 14 de junho de 2014

Portugal em Guerra(s)





Segunda parte da iniciativa:



- Manuel Ferreira, com poesia da sua autoria, sobre a sua vida militar.



- "Adeus minha querida amada", por Manuel Evangelista, declamado. 



- "A Guerra Mundial", por Zézinha e Cilita, cantada. É a única música temos sobre a 2.ª Guerra Mundial.



- "A Noiva", declamada pelo coro da Academia.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Portugal em guerras





Primeira parte do evento "Portugal em Guerra(s)", com os seguintes temas:



- Aldeia de Marianos (declamado, por Zézinha)

- António Domingos (cantado, por Maria Claudina)

- Nove de Abril, Meu Amor (declamado, por Samuel)

- D. Inês (cantado pelo coro da Academia)



Os três primeiros temas dizem respeito à primeira Guerra Mundial. O quarto é um tema do romanceiro medieval, trabalhado pela academia.