A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Saberes e dizeres populares da Ribeira de Muge

Ditos do dia de S. Brás, recolhidos em Paço dos Negros:

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De Fevereiro, o terceiro guardarás, que é o dia de S. Brás.

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Dia 3 é dia de S. Braz. É o protector da garganta. As mulheres pediam para terem boa voz para cantar, e saúde para os meninos que podiam morrer engasgados. Diziam: S. Braz acuda ao rapaz!

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No dia de S. Braz, ou o Inverno está para diante ou está para trás.

clip_image007Se o S. Braz estiver a rir, está o inverno para vir, se estiver a chorar está o inverno a passar.

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Havia um homem que trabalhava todos os dias santos. Um seu vizinho perguntava-lhe se ia trabalhar, ele respondia que sim.

- Mas olha que é dia santo.

- Que dia santo? – E ficavam assim.

Vinha outro dia santo e era a mesma coisa…

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Depois veio o dia de Santa Maria.

- Então amanhã vais trabalhar?

- Pois vou.

- Mas amanhã é dia santo.

Que santo?

- Dia de Santa Maria. O dia dos olhos.

- Olha se me tirar um, ainda fico com o outro.

No dia a seguir é o dia de S. Brás.

- Então amanhã vais trabalhar?

- Vou. Então porque é que não hei-de ir?

- Olha que amanhã é dia de S Brás.

É pá em S. Brás é que eu não vou, porque goela há só uma.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

CONSTRUINDO A HISTÓRIA E A CULTURA

Neste trecho, Pedro Matela contador-mor de Santarém e Abrantes, pede ao rei que mande uma dúzia de escravos para a construção do Paço da Ribeira de Muge. Escravos estes que ficaram e que deram o nome à terra. Tem data de 22 de Abril de 1511. Com base neste documento pensamos acrescentar algo à Cultura de Paço dos Negros, nesta data histórica da terra, 22 de Abril.
«Outrossim senhor os servidores para servirem na dita obra por ser alongada de conversação hão-se trabalhosamente e por mor aviamento da obra me parece que será vosso serviço mandar a ela uma dúzia de escravos e eu mandarei mui bem cuidar deles e estarão na dita ribeira e servirão e forrarão dinheiro a vossa alteza por que posto que os que estavam em Almeirim fizessem pouco proveito e foram mal vendidos estes farão mais proveito e serão melhor vendidos quando vossa alteza mandar por que eu proverei em tudo como cumpre a vosso serviço.»
Folha do despacho
(curiosidade: na metade esquerda do doc., em baixo, pode ler-se “A el-rei nosso senhor” escrita invertida). 17  anexo Matela


sábado, 19 de janeiro de 2013

A minha guerra em paz, numa Terra que era uma promessa a acontecer

Porque um amigo (re) publicou na Net e porque de várias partes do país, por alguns Amigos, me chegou um feedback, e ainda porque o artigo do Correio da Manhã, resumido, talvez por falta de espaço, de algum modo não transmitiu toda a ideia subjacente, eis o artigo completo:

«A minha ida à guerra do Ultramar foi um pouco diferente dos dramas que o “Correio” tem apresentado, e que sempre leio, com respeito pelo sofrimento de tantos. Trabalhava “nas obras”, para mim foi o agarrar de uma oportunidade.

Eis o que recordo deste período que me fez alimentar o sonho e crescer para a vida:

Passei por Coimbra e Figueira da Foz, onde fiz a recruta e especialidade de condutor. Em Santarém veio a mobilização para integrar o Pelotão de Apoio Directo 9782. Um grupo de 52 especialistas em reabastecimento de peças, mecânica-auto, pintura, socorro de viaturas, carpintaria, armaria, soldadura de urnas, etc. Aguardámos o embarque de Março a Junho de 73, no Entroncamento, e depois em S. Margarida. Ali o nosso sargento Bastardo, homem culto, fazia umas palestras culturais. Era o início de um sonho.

Embarcámos em avião da TAP, no dia 23 de Junho. Recordo-me que nesse dia, havia festa na aldeia, triste, mal me despedia de minha mãe e, de motorizada, o velho caminho da estação de Santarém era novo, um sentimento feliz me invadia, o vento a bater na cara parecia voar nas nuvens. Inconsciente? Sonhador? Talvez.

Na manhã de 24 chegámos a Luanda. Aquele bafo ao sair do avião, o calor, aquele cheiro a África, marcou-me.

Estivemos até ao dia 29 no Grafanil. Tínhamos alguma liberdade de ver a Luanda moderna, sedutora, colorida, bem diversa de uma metrópole velha e vestida de negro. Ali se juntaram ao PAD alguns soldados africanos negros.

Fizemos 1050 kms de MVL (viaturas civis), até Henrique de Carvalho. Via-se um grande surto de progresso na cidade. Muitas gruas. As principais ligações estavam já asfaltadas, muitas estradas e pontes em construção.

Mas eram notórios aspectos positivos e negativos, um misto de integração e segregação: À chegada, quando da ocupação da camarata, faltavam colchões de espuma para os africanos. Foi um momento tenso. Estes reclamavam da discriminação na sua terra. Três soldados, representando o Portugal profundo na sua matriz cultural, coesão e diversidade, juntaram-se ao protesto dos africanos. Um da politizada Beja, com argumentos políticos, outro da religiosa Braga, de Joane, Famalicão, com argumentos religiosos, e este que escreve estas linhas, com argumentos humanistas e sociais.

E o comandante concertou com o Batalhão, e fez-se justiça aos autóctones sob o seu comando. Fiz amigos entre eles. No próprio PAD, em sala e horário dedicados, um furriel como professor, e alguns dos africanos fizeram o exame da quarta classe. Sinto orgulho de ter participado. Um deles veio a tirar a carta de condução.

Logo se apresentou um regimento de lavadeiros, um exército de rapazes dos quimbos, a troco de uns escudos, poucos, que lavava a roupa aos soldados.

Incentivado pelo nosso sargento, em Setembro realizava já o meu sonho, tinha aulas do 5º e 6º anos, na cidade; tendo concluído com exame em Março de 74, ao abrigo de regime militar. (seria o início de um longo processo que terminou mais tarde na U. Nova de Lisboa). Nas férias tirei a carta de condução de pesados. Matriculei-me no ano lectivo seguinte, mas o regresso antecipado, devido ao 25 de Abril, interrompeu este percurso.

Havia sempre torneios de futebol, motocross, cinema no cine- Chicapa, ou na Base Aérea, piscina ao domingo, “praia” nas quedas do rio Chicapa.

Claro que havia as saudades. Recordo-me das saudades que tinha das memórias da minha aldeia: do frio, da aguardente e das passas de figo. Hoje não teria saudades do frio, não.

Fiquei responsável pelo pronto-socorro e pela estação de serviço. Acompanhado de um furriel, um cabo e um soldado, que se revezavam, e o meu “amigo”, o velho Diamond, que consumia 50 litros de gasolina aos cem, e que operava num raio de 300 km, fazíamos serviços a civis, ou viaturas militares impossibilitadas de locomoverem até ao PAD para serem reparadas.

Várias vezes percorri as longas distâncias nas Lundas dos quiocos, tanto de dia como de noite. Tiros nunca ouvi. Sorte? Ou a paz dos diamantes da Lunda?

Nestas viagens, viam-se mulheres, crianças e velhos, errantes na sua própria terra, na margem das estradas, carregando os seus haveres, em longas distâncias que, dizia-se, era a estratégia da guerrilha, andar com a casa às costas, devido à fuga dos homens válidos para o outro lado da barricada, no território, ou para lá da fronteira, e a quem a tropa dava boleia, no que se dizia fazer parte da “acção psicológica”.

Mas a acção da tropa não era sempre assim tão nobre, quiçá aconteceram abusos destas mulheres, por militares. Envergonhei-me um dia, ao ver uma perseguição e debandada destas caminhantes, entre Cacolo e Henrique de Carvalho.

Certo dia numa paragem em Muriége, quando espoletávamos umas cervejas, surge, entre outros, um negrito de oito, nove anitos, tão meigo como despido, de olhos tristes, que mal sabia falar português. Era hábito estas crianças pedirem uma moeda “ao branco”. Prontifiquei-me a dar uma moeda, mas um deles não aceitou o gesto. Perguntei-lhe o nome: – Terra – respondeu o negrito.

Terra nome, naquele lugar, contexto e cultura, meditei, mas não apreendi o significado.

Terra, um nome que era uma promessa a acontecer em Angola?

Pouco tempo depois aconteceu o 25 de Abril.

No final de 74 assisti aos primeiros comícios, em paz, em Henrique de Carvalho.

Regressou todo o PAD a Luanda antes do Natal. Passámos mais de um mês na Luanda da linda baía e das belas praias, comprámos prendas, não vi violência na cidade. Regressou o PAD/9782, em avião da TAP, no dia 28 de Janeiro de 75, um dia que sendo uma promessa numa terra a acontecer, se tornou num dia fatídico para Angola: o dia em que tomou posse o primeiro governo formado pelos três partidos angolanos, o dia que, de algum modo, quiçá adiou a promessa daquele menino e começou um longo período negro de guerra civil.

Manuel Evangelista, 61 anos, casado, três filhos. Natural e residente em Paço dos Negros, Almeirim. Ex-Inspector-chefe de Trens e Revisão da CP. Reformado.

Estive em Angola de Junho de 1973 a Janeiro de 1975»

Nota: um grande abraço ao meu Amigo Veiga Trigo. Tu já não te lembrarás, mas eu recordo-me bem que foste tu o maior impulsionador para se fazer justiça aos soldados africanos, logo à chegada.

eis algumas fotos que não foram publicadas:

PAD COMPLETO, SEM OS AFRICANOS.

tropa definitivo

AO DOMINGO, NAS PISCINAS

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PARA MAIS TARDE RECORDAR

macaco h. carvalho 73

PRIMEIRO LUGAR NUM TORNEIO DE FUTEBOL. Árbitro: Veiga Trigo.

pad torneio 74 1º lugar

Paragem em Muriége, terra do negrito Terra.

muriege agosto 74

primeiro comício do MPLA em H. Carvalho, com alguns Amigos negros.

primeiro comício mpla H. Carvalho 1974

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Espera dos Reis


Uniram-se o Rancho Folclórico de Benfica do Ribatejo e a Academia Itinerarium XIV da Ribeira de Muge e saíram pelo Concelho a viver uma velha tradição, que andava um pouco esquecida.
Foram dois dias de algum cansaço mas de grande amizade, generosidade, alegria e convívio, que se pensa já não existirem.

Numa típica rua de Almeirim. A rua e a pedra que deram o nome à famosa sopa da pedra de Almeirim. (HOMENAGEM A DONA MARIANA, A SUA CRIADORA).

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Num dos muitos e famosos restaurantes do concelho.
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Numa casa particular
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No nosso almoço-convívio. (oferta de uma generosa família. obrigados Emília e Carlos).
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A todos os Amigos que generosos foram, com muito improviso, mas com muita dedicação, e com votos de um Feliz 2013, eis algumas das peças recreadas:

Ó Jesus Bendito, tradicional de Vila Verde.
https://dl.dropbox.com/u/4453889/Jesus%20Bendito.mp3

Oh meu menino Jesus (Tradicional de Campo Maior- Michel de Giacometti)
https://dl.dropbox.com/u/4453889/Menino%20Jesus.mp3

Natal dos Gagos (tradicional recolhido pela Academia em Gagos, Paço dos Negros, Almeirim)
https://dl.dropbox.com/u/4453889/Natal%20dos%20Gagos.mp3

FELIZ 2013 A TODOS OS PORTUGUESES.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Boas Festas

A todos os Amigos desejo um feliz Natal e um novo Ano de Paz e alguma Prosperidade. A uns tantos, que este Santo Natal vos traga o tão desejado menino Jesus.

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sábado, 22 de dezembro de 2012

Uma pérola perdida da nossa cultura

Hoje permitam-me queridos jovens que estão na idade própria para “as trincadinhas”, apresentar neste espaço a prova de que em matéria de cultura se pode ser brejeiro sempre elevando a cultura: subir ao povo, e com o povo, como nos diz Pedro Homem de Melo. Preciso é que não se caia na folclorice salazarenta.

Nesta metáfora do povo simples, recolhida em Paço dos Negros, onde era cantada antes da Guerra, está presente toda a riqueza e simbolismo da sedução HOMEM/MULHER: O tremoço rechonchudo, o rapaz homem feito que já bebe da murraça, garboso, responsável; a pevide na simbologia feminina, a conquista da mulher, frágil e esquiva, a pevide brejeirinha, o tremoço pequenino antes de cozido, e que é escorregadio.

Clique para ouvir:

O tremoço rechonchudo

https://dl.dropbox.com/u/4453889/tremo%C3%A7o%20rechonchudo.mp3

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Capela de S. João Baptista de Paço dos Negros

 

Um povo sem memória é um povo pobre, apto a carregar a carga que estranhos lhe queiram impor.

Foi esta capela o berço de Paço dos Negros. Durante 200 anos ali se baptizaram e enterraram, durante mais de 300 ali se casaram. 

Apesar do seu estado degrado e degradante, que nos envergonha, algum progresso foi feito desde 2004. Lentamente.

Frente da Capela em 2004. Foto do livro Lendas da Ribeira de Muge.

Em 2004 capela -pode ver-se a porta que foi tapada

 Rebocado o seu interior em 2005, assim permanece.Paço moinho 2008 017

Rebocado o seu exterior em 2007. Frente actual.

limpeza paço aquilino 2011 005

O telhado continua abandonado, a deixar entra a chuva, à espera de substituição.

102  telhado

Baseado em estudos, pesquisas no terreno e informações de ex-residentes, não seria muito diferente o seu aspecto interior, no século xvi.

cap f 

Uma pergunta: Para quando um pouco de interesse, de respeito pela História, pela matriz cultural e pela identidade de Paço dos Negros.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um pedido aos jovens da minha terra

 

Aos jovens da minha terra.

Quero dizer-vos que não acredito que repitam os actos de verdadeiro vandalismo que tem surgido nos últimos anos no nosso Paço, na noite da passagem do ano. Quero acreditar que os Jovens da minha Terra não têm a mentalidade retrógrada dos mais velhos, quando não havia o conhecimento nem o respeito pela natureza e pelo património.

S

S

Fotos da Passagem do ano de 2011/12, com fogueira em cima das lajes quinhentistas.

Quero pedir-vos: sejam livres, sigam o vosso caminho em liberdade, não obedeçam aos beijacus que em Almeirim se amesandam à mesa do orçamento e de vós se servem. Honrem a vossa História e a vossa Terra.

Ainda é possível refazer todo o nosso Paço Real. Dois terços estão lá. De pé. Orgulhosamente. Teimosamente. Para principiar, cortem a língua a esse que chamar “pórtico” ao nosso Paço Real. Esse título achincalhante, é invenção e só serve o lóbi do Restopórtico, amesandado em Almeirim.

Depois de me perseguirem durante seis anos, uma coisa os caciques e os amesandados não me podem roubar: o sonho, o prazer, a alegria, a felicidade de trabalhar para a minha terra, sem interesses escondidos, coisa de que eles se não podem gabar.

Já que vejo tantos jovens a quem roubaram o sonho, ofereço-vos um pouco do meu sonho, que é fruto de muito trabalho.

final com fonte leve

sábado, 8 de dezembro de 2012

Paço dos Negros nascida dos Descobrimentos

Será talvez uma ousadia, que os especialistas poderão desvendar, mas este retrato extraído do Livro
RETIRADO

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Um contributo para o desenvolvimento sustentado da Ribeira de Muge

Em boa hora começam a surgir estudos sérios e científicos sobre a Ribeira de Muge. É o caso do presente trabalho inserido na tese de Mestrado da Universidade de Coimbra, Curso de Gestão e Programação do Património Cultural, do nosso conterrâneo Samuel Tomé.
Trata-se de um trabalho muito completo sobre os moinhos desta ribeira, sua história desde o século xv, minucioso enquadramento nas diversas tipologias e uma visão interessante de como este riquíssimo património pode ser factor de desenvolvimento económico.

Está o Autor e também a Ribeira de Muge de parabéns.

capa samuel

sábado, 24 de novembro de 2012

Paço dos Negros, a Tacubis das Tábuas de Ptolomeu - uma forte hipótese

  1 ptolomeu


Fazendo uma análise relacional das coordenadas de Ptolomeu, Tacubis com os valores de 6º, 20´; 40º, 45´. De Scalabis, 15´a sul e 20´para leste. De Ebora, 55´ a norte e 40´ para oeste, assenta Tacubis muito próximo do local da Paço dos Negros actual.
Évora com as coordenadas 39º,50´ de latitude norte, Santarém 41º,00´ (40º, 55´ em Saa), Tacubis 40º,45´: Dista Évora de Santarém, por estrada, cerca de 120 km. Paço dos Negros dista 100 km de Évora e 20 de Santarém. Ambas as distâncias confirmam uma relação correcta das coordenadas, pois atestam a conformidade de a cada grau de latitude corresponder cerca de 110 km. O que não acontece em relação à região de Abrantes.
Mário Saa que afirma a via XIV do Itinerarium assentando na ribeira de Muge, teria considerado correctamente Tacubis a sudeste de Scalabis. Parece-nos, todavia, que o principal erro de Saa reside em ter considerado, contra todas as evidências, e segundo os mais respeitados estudiosos do tema, Scalabis em Tomar. (ver mapa, pág. 31).
(do Livro Paço dos Negros da Ribeira de Muge-A Tacubis Romana)

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domingo, 18 de novembro de 2012

O pão

A propósito de uma questão de trânsito em Almeirim, aliás (não) resolvida do modo mais sábio e saboroso.

Segundo o sociólogo alemão, Norbert Elias, o pão revela toda a cultura de um povo. Diz ele que, entrando numa padaria, fica-se a conhecer o seu presente, mas também todo o seu passado.

Desde sempre o pão na nossa cultura se reveste de uma dignidade própria. Quem não se lembra de ver os nossos pais e avós (ou não o pratica) que, ao cair ao chão um pedaço de pão o apanhavam e, beijando-o, o aproveitavam. De terem o cuidado de nunca deixarem o pão virado de costas.

A própria etimologia da palavra pão nos revela a dignidade e riqueza associadas às palavras estruturantes da sociedade, como pai, pátria, patrão, padeiro, padrinho, papa, etc.

O sociólogo Fernand Braudel, por sua vez, distingue o processo evolutivo da humanidade, em três grandes civilizações, cada uma delas associada basicamente a uma espécie de cereal, durante milénios, que considera plantas de civilização: A asiática ligada ao arroz, a ameríndia ligada à cultura do milho e a europeia que nasceu no Crescente Fértil, herdeira da cultura do trigo, a que associa o que considera o superior desenvolvimento da sociedade ocidental pelas propriedades alimentares deste cereal.

Hoje a sociedade é essencialmente prática e funcional, o simbólico não é percebido ou não tem lugar, pelo que podem parecer, estas divagações, não aplicáveis nos dias que correm.

Mas não é assim. O simbolismo do pão continua presente na nossa cultura.

Vêm estas considerações a propósito do tratamento diferenciado que a nossa sociedade continua a dar a locais onde o pão (e seus derivados) é rei e senhor.

Experimente o meu caro visitante deste blogue passar em Almeirim, pela rua Condessa da Junqueira e veja em frente à padaria ali existente os carros estacionados em cima dos passeios, o trânsito não raro parado, enquanto os seus proprietários se abastecem de um aromático pão quentinho, ou se deliciam com um saboroso bolo e um cafezinho, com toda a compreensão da sociedade.

Pão acabado de cozer. Foto desse ritual, há 4 anos, em casa da senhora do meio, que faria agora 100 anos.

pão

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Contos de Entre-Muge-E-Sorraia.

A todos os amigos que gostam destas coisas da cultura popular, quero agradecer o apoio que deram ao livro Histórias Ferroviárias.

Terminada esta tarefa (falta apenas entregar meia dúzia), é preciso passar a outra etapa.

 

Alguém disse que a cultura local, sendo genuína, é o que há de mais universal.

Por isso, quero comunicar que ainda antes do Natal vai sair o livro Contos de Entre-Muge-E- Sorraia.

Trata-se de um livro de contos populares, recolhidos entre as gentes rudes deste recanto do nosso país, região de caseiros, cabreiros, porqueiros, a que Mário Saa chamou “o maior deserto humano de Portugal”, o triângulo Almeirim, Coruche, Ponte de Sor, que abraçam toda uma cultura rude mas fabulosa: contos simples e rudes mas cheios de uma sabedoria ancestral, contos jocosos, maravilhosos, fábulas mitológicas, humorísticas, morais.

São contos situados geograficamente, mas que na realidade vão beber ao imaginário da humanidade inteira; porém, algum valor se o tem, provém de se tratar de uma (re)criação local: contos nos quais as gentes, os animais autóctones, os lobos, as raposas, as cegonhas, os burros, os sapos…, são omnipresentes. Região tão genuína ainda que, até a toponímia, como nenhuma outra, vive do nome dos animais.

A edição é muito limitada, é de colecção, 75 exemplares, pois o que me interessa é a publicação, o registo da cultura desta minha terra e da minha gente, com dignidade, sem pedir favores que são sempre tolhedores do progresso e da liberdade criativa. O preço é de 5 euros.

 

Índice DO LIVRO

PREFÁCIO 7

O REAL CAVALO MOUFÃO 9

OS OITO TOSTÕES 11

DÁ A MOSCA NOS HOMENS 13

O JUÍZO, O VENTO E O ORVALHO 15

PORQUE É ETERNO O POUCO-JUÍZO 16

AMIGOS, AMIGOS, NEGÓCIOS À PARTE! 19

UM PADRINHO NA BEIRA 20

OS GALEGOS, OS BARRÕES, OS BIMBOS, OS CARAMELOS E OS GAIBÉUS 21

OS CIENTISTAS E O BURRO SABICHÃO 23

A CASA DA ALORNA. QUEM LÁ VAI… 24

O PEIXE AZUL 28

O PINTO DAS ANDARILHAS DE PAU 31

A VELHA DA CABAÇA 33

O BURRO, A FOICE E O GALO 34

O PRÍNCIPE RAMOS-VERDES 38

OS DOIS IRMÃOS E A PRINCESA 42

A PRINCESA E O CABREIRO 44

O JOÃO DAS PATETICES 46

SÓ UM SALAMIM 48

O MAIO GRANDE 50

O EMPRÉSTIMO 53

A FLAUTA MÁGICA 54

A VELHA E O SAPATEIRO 56

O ZÉ MATIAS 58

O APOSTADOR 59

O ZÉ MOCHO 60

A BURRA CARREGA-SE ATÉ CAIR 61

O GALO 62

O RATO, A RÃ E O BESOURO 63

O MAL DA FRUTA 64

JÁ VIRAM ISTO? 65

A GRAVATA 66

OS VELHOS ZANGADOS OU O GATO NABULALÁ 67

AS LUVAS DE PELE DE OURIÇO 68

A MANTA REPARTIDA 70

O LAVRADOR E AS FIGUEIRAS-DO-INFERNO 72

A CASA GRANDE DEMAIS 73

UMA TROVOADA SANTA 75

A RACHINHA 77

A PRAGA 79

A REVOLUÇÃO EM ALMEIRIM 80

AS ALMAS DO OUTRO MUNDO 81

ERA SERVIÇO QUE SE HAVERA DE FAZER… 83

AS APARÊNCIAS ILUDEM 85

O COMPADRE RICO E O COMPADRE POBRE 86

OS POBRES RICALHAÇOS 88

A GUITARRA 89

A PELE DA BURRA 91

O BORRIFINHO E O BORRIFALHO 93

O CAÇARRETA 95

OS BICHINHOS BILROS 97

DOMINGOS OVELHA 99

O PADRE SARRAZOLA 100

PASSARINHO TRIGUEIRO 101

O PATRÃO DIZ QUE VÁ, JÁ, JÁ 102

A ALMINHA PERDIDA 103

O BACALHAU ESTRAGADO 104

AS VIZINHAS, OS CARAPAUS E O GATO 105

O REI DE BOA BOCA 107

O REI, O PADRE E A GALINHA 109

O REI E O PRISIONEIRO 110

OS FIGOS DO REI 111

A CIGARRA BANDARRA E A FORMIGA RABIGA 112

A RAPOSINHA GAITEIRA 113

O PORCO E O BURRO 114

DEZOITO POR CIMA DO MOIO! OU A LEBRE E O SAPO 115

O RATO E A RÃ 118

O HOMEM E O LOBO 119

VOZES DE BURRO 120

A RAPOSA E O BURRO 121

A RAPOSA RABICHA E O CÃO 122

O MELRO E A RAPOSA 123

A RAPOSA E O LOBO 125

O LOBO E A RAPOSA 128

O LEÃO E A VACA 129

UM BAILE NO CÉU, OU A RAPOSA E A CEGONHA 130

O CARNEIRO E O GATO 132

O BURRO, O CÃO, O GATO E O GALO. 134

O GALO E A RAPOSA 136

A RAPOSA E O MOCHO 137

O LOBO E O CORDEIRO 138

A RAPOSA, O SARDINHEIRO E O LOBO 139

LISTA DE INFORMANTES 140

Capa do livro

capa de Contos de entre muge e sorraia

 

mapa região copy curto

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cidadania e cultura em Almeirim

 
Coisas que precisam de ser ditas, por alguém livre e despido de interesses pessoais e mesquinhos, até para assinalar algum mal-estar social, localmente evidente, exorcizar alguns medos, manhas e  cobardias, e repor a dignidade na área cultural no concelho de Almeirim:
Em Maio de 2011, foram comemorados os 500 anos do maltratado Paço da Ribeira de Muge. [Carta-escritura, 3 de Maio de 1511].
Um grupo de cidadãos responsáveis, que se mobilizaram em nome da entidade Academia da Ribeira de Muge, que vinha celebrando estas memórias, com um evento cultural popular, mensal, desde Dezembro 2010 [a Maio de 2011], no Paço, onde foram, nestes meses, recriadas e apresentadas peças locais “inéditas”, evidentes pérolas perdidas das recolhas populares locais.
Convidou a Academia as escolas da terra, freguesia e sede concelhia, associações do concelho, mais de meia centena, para participarem individualmente, ou se fazerem representar no memorável evento.
Foram, neste distinto dia, apresentadas as pérolas mais raras da cultura popular recolhidas, cuja temática, os negros, remontando a pretéritos séculos, vai beber à alma da cultura do povo de Paço dos Negros e da Ribeira de Muge;
Foi apresentado “O Livro” que conta a ignorada História de Paço dos Negros, desde tempos imemoriais até à actualidade.
Compareceram ilustres convidados, como a Grande escritora Deana Barroqueiro, Autora de D. Sebastião e o Vidente, livro cuja trama é também passada neste Paço;
Honrou-nos com a sua presença, um ilustre representante da Casa Real Portuguesa.
As comemorações efectuaram-se com todo o sucesso e dignidade. A sociedade civil, os cidadãos livres mobilizaram-se; não foi necessário pedinchar dinheiro, nem favores, às costumeiras entidades. O que é um exemplo de cidadania activa e criativa, que a todos deveria orgulhar, não fosse preferirem viver de esmolas.
Verificámos com tristeza, que, das associações concelhias, com uma grande e inverosímil coincidência, destas entidades nem uma se fez representar, nem apareceu alguém a título individual. De Santarém, terra da liberdade, sim, disseram presente. (Se alguma pessoa destas associações e escolas compareceu, pedimos desculpa, não tivemos conhecimento; tivemos conhecimento sim, de funcionários com ligações à autarquia, que depois de marcarem lugar, vieram a desistir).
(De salientar que as comemorações dos 600 anos do Paço real de Almeirim [1411], começaram no fim do prazo, em Dezembro de 2011, tendo terminado já no ano de 2012).
Atreve-se este pobre escriba a pensar «que se teriam “esquecido” da História da terra», e perante a revelação, o sucesso e a dignidade das comemorações da sociedade civil em Paço dos Negros, resolveram colmatar esta imperdoável falha com umas serôdias e encomendadas palestras.
Escrevo isto, não porque pense que as pessoas não devam ter a liberdade de ir aonde querem, de participar, ou não, no que querem, mas porque como cidadão livre e que pensa pela sua cabeça, penso que o desenvolvimento da cultura e do movimento associativo no nosso concelho, em liberdade, sem submissão e sem medo, está em risco; está manchado por esta e outras indignidades de subjugação aos ditames políticos, por pessoas que, por acaso, em alguns casos até deviam ser, para nós, exemplos de cidadania. Até para ter o benéfico efeito de catarse nas consciências, que se deseja aconteça, gostaria que esta mensagem fosse conhecida dos representantes das Associações e Escolas do concelho.  
Algumas fotos a relembrar os festejos dos 500 anos do Paço, um dos poucos, se não o único, monumento quinhentista de pé, no concelho.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Paço da ignomínia em Almeirim

Em Almeirim continua a existir um amesandado lóbi, chamado do Restopórtico, baseado não sei se na ignorância se na má fé. Apesar de ser do domínio público toda a história deste Paço, do mesmo continuar teimosamente de pé, continua a ser referenciado, até por quem teria o dever de o preservar e defender, de modo pejorativo e ignominioso. Vejamos o que encontramos na NET: http://www.cm-almeirim.pt/conhecer-almeirim/historia/item/188-pa%C3%A7o-dos-negros-da-ribeira-de-muge Apenas o pórtico ainda marca um símbolo da História de Almeirim que continua a desafiar o tempo e a pedir que a sua imagem não se perca no esquecimento. http://estilosdevida.rtp.pt/rtp/ruinas-do-paco-real-dos-negros-locais-a-visitar-almeirim-paco-dos-negros-fazendas-de-almeirim-640-1.html Do antigo Paço do século XVI, resta o pórtico que dava acesso ao pátio, coroado pelo escudo real. 2080-640 FAZENDAS DE ALMEIRIM Paço dos Negros 2080-640 FAZENDAS DE ALMEIRIM http://www.lifecooler.com/portugal/patrimonio/RuinasdoPacoRealdosNegros Do antigo Paço do século XVI, resta o pórtico que dava acesso ao pátio, coroado pelo escudo real.   A placa local anunciadora, há muito que devia ter sido substituída, por outra que repusesse a verdade:

PAÇO REAL DA RIBEIRA DE MUGE

1511

Placa onde pode ver-se que o desprezado, mas belo conjunto do Paço Real que o famigerado Lóbi, sabe-se lá com que interesses, nega ter existido. Prtico indicador f

Interior do desvirtuado Pátio, ocupado por construções. (uma casa de banho já foi demolida).
pao para classificao cdurto 005

Maqueta representativa do Paço no século XVI.
maqueta JPG

Que me conste, não haverá no país outra aberração que se compare.