A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

sábado, 21 de março de 2015

Dia Mundial da Poesia III - Como eu brincava, ninguém adivinha

Como ficara decidido, pela Academia que seriam publicadas neste dia, três "poesias", coisas do povo, iletrados alguns, aqui vai a homenagem final.


Quando eu era criança
Brincava com o que tinha
Fazia uma boneca de trapos
Como eu brincava, ninguém adivinha

Tão bonita a minha boneca
Braços e pernas eram de buínho
O cabelo era de barba de milho
Como eu brincava ninguém adivinha

Quando se partia uma peça de loiça
Ninguém adivinha e nem vai acreditar
Eu ficava toda contente
Para os pedacinhos aproveitar

No quintal com umas pedras
Fazia a minha cozinha
Aproveitava os cacos mais bonitos
Como eu brincava ninguém adivinha

Noutra divisão fazia o quarto
Para a minha boneca deitar
Nos pedacinhos de retalhos
Se eu disser nem vão acreditar

Ao 84 não posso voltar atrás
Mas tenho tudo na lembrança
Já posso brincar outra vez
Já sou outra vez criança

Recolhido por Manuel Evangelista junto de Maria de Lurdes Baptista

Dia Mundial da Poesia II - O sonho

Foto de Marcos Evangelista. Premiada em concurso de fotografia, Chamusca, 2003. 


Depois de um dia de trabalho
Senti-me muito cansada
Que me errei a dormir
Mesmo no chão assentada

Acordei era escuro
A noite estava cerrada
Sem saber o meu futuro
Eu já não via nada

Apenas uma sombra desabitada
Com uma cova lá dentro
Junto dela uma enxada
Onde sepultei meu pensamento

Fui arrastada pelo vento
Que me levou pelo ar
Numa montanha de cinzento
Ele aí me foi poisar

Lá vi o céu e o inferno
Ouvia gente a gritar
Ouvi alguém a sorrir
E os anjos a cantar

Foi tudo tão de estranhar
Por onde quer que passei
Se me vierem procurar
Eu contar-lhes não sei

Fiquei meio perturbada
O caminho era diferente
Não vi nada rastejado
Pelos passos de outra gente

Fui andando para a frente
Por altos e montanhas
Ouvi barulhos de outros seres
Com umas vozes tão estranhas

Galguei vales, galguei espinhos
Galguei estradas e carreiros
Vi os pássaros em seus ninhos
Lá em cimo nos outeiros

Onde estavam os carvoeiros
Com os fornos em chama
Isto não passou de um pesadelo
A dormir na minha cama.

Recolhido por Manuel Evangelista junto de Silvina Fidalgo

Dia Mundial da Poesia I - Zé Moira


Vim parar ao Vale da Lama
Para me fornecer de capitais
Entre matos e chaparrais
Imito a fraga africana

Eu tenho tantas farturas
Sem conhecer o dinheiro
Por falta de candeeiro
Deito-me sempre às escuras

Tenho portas sem fechaduras
De palhas é o telhado
Tenho um tecto envernizado
Com fumos de várias cores
Neste jardim de flores
Estou deveras encantado

Eu nunca posso usar
Casaco nem sobretudo
A mim me faz falta tudo
Pois assim é que é gozar

Uma esteira para me deitar
Por não ter outra cama
Era uma pobreza franciscana
A minha roupa são farrapos
Os meus companheiros são gatos
Porque habito numa cabana

O meu calçado fino é
Foi feito por um vaqueiro
As solas são de salgueiro
Que mal posso andar de pé

Ainda não perdi a fé
De comprar um vestuário
E umas lindas alpercatas
Para dar ligeiro de patas
No deserto solitário

É um signo de mau porte
E com ele temos que seguir
E assim temos de cumprir
Cada um com sua sorte

Eu fugi a este golpe
Para ver se ninguém me chama
Vim esbarrar ao Vale da Lama
Para me fornecer de capitais
Entre matos e chaparrais
Imito a fraga africana.

Recolhido junto de Norberto Evangelista por Manuel Evangelista. 

domingo, 15 de março de 2015

O Terreiro do Paço e os pinheiros da Várzea do Pinhal, nos Gagos.

Um relato sonoro de um homem que nasceu em 1915, Rafael Roberto, um sábio, que ilustra o tema desta foto que com a devida vénia, partilho: O transporte de pinheiros, no início dos anos 20, do século passado, de Gagos na ribeira de Muge, para o Tejo, em carros de bois, e daí para o Terreiro do Paço, em Jangadas. Clique para ouvir (2 minutos):

https://dl.dropboxusercontent.com/…/O%20Porto%20do%20Mijado… 

Com a devida vénia, foto de Hélio Matias, de Vallado dos Frades. (facebook)                    

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A capela de S. João Baptista CONT.


Foto de 2004 do livro Lendas da Ribeira de Muge,


Frente da capela de S. João Baptista – Pode ver-se a porta entaipada.

Atulhada numa lixeira, aquela era a porta da Capela quinhentista, de S. João Baptista, que teimava em resistir.

Em 2005, cerca de 20 anos após ter sido adquirido o espaço, pela Câmara municipal, foi um grupo de cidadãos da terra, encabeçados e organizados pelo Dr. Aquilino Fidalgo, que teve a visão e a coragem de transformar aquela lixeira, num espaço histórico e cultural agradável, mágico e cheio de simbolismo.



As realidades devem ser ditas: a câmara, sempre atenta e pronta a aproveitar-se do trabalho dos outros em seu proveito, mas sempre, e até hoje, fugindo à sua responsabilidade de classificação deste monumento concelhio, a três meses das eleições, em Julho de 2005 consegue fazer algumas obras, como colocar uma porta de alumínio. Em 2007/08 um reboco em cimento.

Festa, 02-07-05



Hoje esta capela, que é o berço de Paço dos Negros, tem um aspecto exterior um pouco mais cuidado, mas o telhado, 30 anos após a dita aquisição, continua como se vê na foto abaixo, a permitir que entrem os pássaros e a chuva. Urge dignificar o mais simbólico monumento de Paço dos Negros.