A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Academia da ribeira de Muge - Dicionário do Rei Preto

Baseado nas falas do negro Furunando, das peças de Gil Vicente, e no livro de Paul Teyssier, la langue de Gil Vivente:

Dicionário do Rei Preto

Acordar – cordaro
Almoxarife – moxarifo
Amargurado – margurado, murgurado
Andar – andaro
Aramá que te rô – ao diabo que te dou
Assim – assi
Beber – bevê
Caçar – caçá
Carreira – carera
Casamento – casaramento
Cativo – catibo
Chover – chovere
Clérigo – crérigo
Coitada – coitaro
Comer – comê
Conhecer – conhecê
Consagrado – consabrado
Cuido – cuida
Dais – dás
Deitar – deitá
Derradeira – deradera
Deus – Reos, Deso
Diabo – riabo
Dinheiro – rinheiro
Dirá – rirá
Dormia – doromia
É, Está – sá
El-rei D. João – rei Jan Joan
Enjoada – nojara
Era – saba
Escrivão – crivam
Esmoler – moladero
Espantado – sapantaro
Espírito Santo – Prito Santo
Estava – saba
Excomungado – comungaro
Falar – falá
Feia – feo
Fernando – Furunando
Fidalgo – firalgo
Foliar – fruriá
Formosa – fermoso, foromosa
Furtar – furatá
Furtasse – frutasse
Isso – esso
Jesus – Jesu
Ladrão – ladaram
Maçã – mação
Madura – maduro
Mais – más, masa, maso
Maridada (casada) – Maruvada
Marido – marida
Matou – mató
Melhor – mior
Mim (eu) – mi
Minha – mia, meu
Missa – misa
Muito – muto
Mulher – moier, muiero
Namorada – namoraro
Não – nô
Olhar – oiai, (abre) oio
Padre-nosso – pato-nosso
Palheiro – paveiro
Parir – pariro
Pela – polo
Perguntar – purugutá, bruguntá
Pobre – prove
Poder – podê
Pois – pôs
Por – poro
Porque – poro que
Porquê – puru quê
Português – Portuguás
Pura – puro
Romã – Romão
Salmonete – saramonete
Segura – seguro
Senhor – seoro
Senhora – senhoro, seuro
Tanta – tanto
Tanto – tanta
Terra – tera
Todo – toro
Tomar – tomai
Traidor – tredora
Travessa – trabesso
Trazer – trazê
Triste – trisse
Tudo – turo
Uva – uba
Vem – bem
Vestido – besiro
Vida – vira, bida
Vindimar – vindimai
Você – boso
Vontade – votare
Vós – bó, bós
Vosso – bosso
Vou – (mi) vai, bai


Janelinha de quarto onde, segundo a tradição (ainda viva), era a casa dos gatos,
onde o Rei Preto castigava os escravos negros. 

domingo, 16 de maio de 2010

Academia da Ribeira de Muge - Aldeia de Marianos

Um "verso" recolhido em Marianos, que retrata a vida comunitária da aldeia. Pressente-se uma voz colectiva, em que a partida de um grupo de três rapazes para a Guerra de 14-18, foi cantada pelas mulheres.


Recolha efectuada junto de Jesuína Borrega, iletrada, nascida em 1927, Marianos.

Aldeia de Marianos,
Rodeada de tristeza,
Já te falta a mocidade,
Falta-te a maior riqueza.

Três separações que houve,
As três deixastes abalar,
A flor da mocidade,
Já me cá vai a faltar.

Muitas mães choram, choram,
Pelos seus queridos filhinhos,
À despedida lhe deram,
Abraços, muitos beijinhos.

Filhos do meu coração,
Quem lhes pudera valer,
Antes que eu queira não posso,
Este caso resolver.


De salientar que as raparigas da ribeira de Muge, de pobres que eram, para enviarem uma foto para os namorados, maridos, que estavam na guerra, em França, pediam o vestido emprestado ao fotógrafo.

Rapariga de Marianos

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Academia da Ribeira de Muge-O dia da Espiga

Mas não pense o estimado visitante deste blog, que as proibições e interditos em dia de Quinta-feira de Ascensão, o facto de não se trabalhar, era negativo, no contexto social da época. Não. Tinha coisas positivas? Tinha-as e de que maneira.

Eram as mesmas pessoas que se recusavam a trabalhar, as que aproveitavam estes dias para passear no campo.

Oiça só. O Dia da Espiga

Academia da Ribeira de Muge-Quinta-feira de Ascensão


Hoje, Quinta-feira de Ascensão, algumas frases que recordam vivências, ditas por mulheres da Ribeira de Muge:

Em Quinta-feira de Ascensão davam o leite. Ainda não era manhã já os cachopos iam todos aí por esses cabeços fora com a garrafinha na mão, à procura da pinguinha do leite, nas casas dos lavradores.

"Era um dia santo tão grande, que havia uma hora que nem os passarinhos iam ao ninho.

A minha mãe no dia de Quinta feira de Ascensão nem me deixava esgravatar no chão. Dizia que era pecado.

Na Quinta-feira de Ascensão, quem não come carne nem leite, não tem coração.
Depois aconteciam canções cheias de interditos, como a que a Academia da Ribeira de Muge recolheu em Paço dos Negros:

Clique para ouvir: Quinta feira de Ascensao

sábado, 8 de maio de 2010

Contos de Entre-Muge-e-Sorraia

Para quem não leu n'O Almeirinense

Um conto bem ao jeito dos antigos cabreiros de Entre-Muge-e-Sorraia

Foi pior a emenda que o soneto

Ali à beira da estrada que vai de Paço dos Negros para a Lamarosa, entre o Zebro e o Zebrinho, há mais de setenta anos, numa palhota no meio dos sobreiros, morava um pobre diabo de nome José Rizo.
A razão da alcunha que tinha de Zé Mocho não é para aqui chamada. Fêmeas.
Pequenino. Vivaço. Mas um homem não é coisa que se meça aos palmos. E nem sempre o ditado popular é verdadeiro. Era na verdade um honrado cavalheiro, como vamos ver pelo modo como fez questão de se desenvencilhar perante o doutor juiz quando este, vejam só, teve a ousadia de pôr em questão brios, juras e honras pessoais.
– Pronto!!!... José Rizo, por alcunha o Zé Mocho! Na Lamarosa não há outro!
Deve ficar dito desde já que, desvios de bens alheios nem por sombras. Foi por causa de um caso de saias que José Rizo, por jeitos especializado no deslindamento destes e doutros casos, foi chamado ao Tribunal de Coruche para servir de testemunha.
Audiência concorrida, as mulheres sempre queriam ver a cara da desavergonhada.
Quando o doutor juiz chamou por José Rizo, ele ergueu-se num pulo:
– Pronto!!! Senhor doutor juiz! José Rizo, por alcunha o Zé Mocho! Na Lamarosa não há outro!
O juiz admirado com tanto desembaraço, deu um olhar de relance pela sala, a desautorizar o sussurro que nela se levantava. Uma martelada na mesa. Pigarreou...: Silêncio!!!
Zé Mocho olhou para o lado e viu a assistência que por acaso era tudo pessoas da Lamarosa, num burburinho que só não atingiu a algazarra geral porque o juiz lhes pôs o dedo no nariz, começou a ficar encavacado.
Com medo de que, chegando cá fora com tão nobre auto-título, as levasse, cortou-as: – Peço desculpa ao senhor doutor juiz! Sou eu e a cabra do João Neves!
Mas, conta-se, foi pior a emenda que o soneto: o Juiz ficou sem entender, e o burburinho atingiu a algazarra geral. É que a cabra do João Neves era conhecida pelo tamanho da sua armadura.