A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

As recomendações do IPPAR e o Paço da Ribeira de Muge

Depois da recomendação do IPPAR, em 2005, para que a Câmara de Almeirim desenvolvesse o processo de classificação do monumento quinhentista, único ainda recuperável no concelho, o que esta Entidade tem vindo a fazer, bem pode dizer-se que raia o criminoso: Em 2006, esconde o Paço atrás de uma montanha de terra, destruindo de vez o Pomar Real. Não satisfeitos, em 2009, montam-lhe um estaleiro de obras em cima.












Deixo ao leitor deste pobre blog que classifique a atitude da Câmara de Almeirim no que respeita à defesa do património histórico que lhe compete defender e preservar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Ainda o Furunando de Gil Vicente

Será este Fernado Frade o Furunando de Gil Vicente? Alguns autores desconhecendo a origem do(s) negro(s) em Gil Vicente, remetem  para negros provenientes da costa da Guiné, Benim, Mina, contudo aventam servirem estes em Lisboa.
Pensamos ser este Homem negro da capela da Ribeira de Muge, o Furunando de Gil Vicente.



Recebeu Fernando Frade homem preto da ribeira de Muja os cinco alqueires de azeite contidos em este mandado o qual azeite custou em cento e oitenta reis por alqueire em que montou os novecentos reis e assinou aqui em Santarém a 22 de Agosto...

Trecho da fala de preto em A Nau de Amores:

– Pues senor que hazeis acá?
– Poro meu votare a mi vem. - Por minha vontade vim
Abre oio Purutugá - Visitar Portugal (olhar Portugal)
Bo tera que ele tem. - É uma boa terra
Aqui muto a mi furugá. - Aqui folgarei muito
Y si muire mi matai, - e se uma mulher me matar (de amores)
Gran pecaro que bai ela. - Grande pecado fará ela.
Benturo quero buscai - quero buscar a ventura
Esse santo caravela, - nesta santa terra
Se boso seoro mandai. - Se vós senhor o permitis.

in Paul Teyssier.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Gil Vicente, o Furunando, e Paço dos Negros

Destes escritos Quinhentistas, de Henrique Leonor Pina, sobre Gil Vicente, pág. 59: «não era bom caçador, mas conhecia bem o Paço da Ribeira. Falava com frequência com os negros que aí se haviam fixado.../...Chamava-se precisamente Fernando. Pediu que lhe rezasse o Padre Nosso e a Salve Rainha...



Salve Rainha retirada da peça "O Clérigo da Beira":

– Sabe a Regina*
mathoa misericoroda
nutra dun cego sável
até que vamos a oxulo filho degoa
alto soso peamos já frentes
vinagre quele quebraram em balde
ja ergo a quarta nossa
ha ylhos tue busca cordas
oculos nosso convento
e geju com muyta fruta ventre tu
ja tremens ja pias.
Seoro Santa Maria…







(pode ver-se como a linguagem é um hino à vida no Paço da Ribeira.)









*Salve Regina, mater misericodiae Vita, du cedo et spes nostra, salve! Ad te clamamus, exules filii Evae. Ad te suspiramus gementes et flentes in hac lacrymarum valle. Eia ergo, advocata nostra illos tuos misericordos óculos ad nos converte. Et Jesum, benedictum fructum ventis Tui nobis, post hoc exilium, ostende. O clemens, o pia! o Dulce virgo Maria.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Curiosidades sobre o Paço dos Negros da Ribeira de Muge

A relação de Portugal com o Benim viria a deixar a sua influência em Paço dos Negros.
Este negro Pedro Barroso que em 1515 econtramos como mensageiro, em Almeirim, fazia parte de uma elite benim, decerto baptizada nestes primeiros anos de 500. Vamos encontrá-lo em 1516, como língua, numa Inquirição sobre a nau dos armadores que da ilha de S. Tomé foram a Benim, ao resgate.




Almeirim e Paço dos Negros nas relações Portugal-Benim,

Um documento que atesta a grande intensidade das relações Portugal-Benin, no ínicio do século XVI.
Corpo Cronológico, Parte I, mç. 19, n.º 62:




Ruy Leite. Mamdamosuos que dêes a Pero Baroso, homem preto que veio a nós com cartas delRey do Benym e huũ capuz e huũ pelote de panno de duzemtos reaes o covodo, vermelho ou da cor que elle mais quiser, e hũuas calças de guardalate de preço de clxxx reaes, e huũ gibam de chamalote vermelho. E dailhe tudo feyto e tirado da costura, que lhe mamdamos dar pera se vestir, e sem esperardes por folha, por que asy ouveemos por beem. E por este aluará, com seu conheçimento, mamdamos aos cõtadores que vollo leueem ê cõta.
Feyto ê Almerim, a xx dias de dezembro, o secretario o fez, 1515 – e asy lhe day huũ barrete vermelho.
Rey

Recebio o dito Pero Barroso de Ruy Leyte todo o vistido acima, cõteudo, feyto e tirado da costura e asy barrete uermelho, em xxij de janeiro de bxvj.
a) Jorge + Correa. a) P. + Barroso.

hũu capuz e pelote de pano de ij reaes o covado e huãs calças de guardalate de clxx o covado e huũ gibam de chamalote vermelho e hũ barrete vermelho, a Baroso, que veeo cõ cartas delRey do Benym, a vosalteza ê Ruy Leite.
Recebido - Y. da Fonseca.