A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

sábado, 31 de março de 2012

Documentos da nossa História


O documento de 31 de Maio de 1483 que é tido como, de algum modo, a data da criação do concelho de Almeirim.




Torre do Tombo, Livro 6 da Estremadura, fols. 278v-279. (microfilme 1002)

Os moradores da vila de Almeirim. Privillégio por que são escusos de pagar em pedidos, peitas, fintas, talhas, serviços.
Dom João e etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que considerando nós como el-rei dom João meu bisavô que Deus haja edificou nossa vila e paços de Almeirim, e como isso mesmo ele e el-rei D. Duarte meu avô e el-rei meu senhor e pai cujas almas Deus haja, sempre folgaram de ter os ditos paços mui bem corregidos e a dita vila bem povoada para quando a ela fossem seus oficiais e alguns cortesãos, acharem pousadas em que pudessem ser aposentados, e desejando nós nesta parte seguirmos o que eles seguiram e também por que nosso desejo e vontade sempre foi e é nós nisto conformarmos com suas vontades, e para a dita vila ser melhor povoada e aproveitada a terra dela, por lhe termos afeição e nela muito nos desenfadarmos e querendo fazer graça e mercê aos moradores dela que ora são, e ao diante pelos tempos forem, temos por bem e queremos que daqui em diante sejam privilegiados e escusados, de não pagarem em nenhuns nossos pedidos, peitas, fintas, talhas, serviços emprestidos? que por nós daqui em diante forem lançados, por qualquer guisa e maneira que seja, nem vão com presos, nem com dinheiros, nem sejam tutores, nem curadores de nenhumas pessoas fora da dita vila e termo dela, posto que as tutorias sejam lídimas, nem sirvam em pontes nem em fontes, senão naquelas que se houverem de fazer na dita vila e seu termo, nem sejam isso mesmo postos por besteiros do conto. Outrossim queremos e mandamos que nenhuma pessoa ou pessoas de qualquer estado e condição que seja, não pousem com eles em suas casas de morada, adegas, nem cavalariças, nem lhe tomem deles roupa de cama, alfaias de casa, palha, cevada, lenha, galinhas, gados, nem outras nenhumas coisas de seu, contra suas vontades, nem lhes tomem suas bestas de sela, nem de albarda, para nenhumas cargas, salvo para as nossas e da rainha, e do princípe, meus sobre todos muito amados e prezados mulher e filho, para quando nós e a Rainha e o princípe formos, todos ou cada um de nós, na dita vila, então não serão escusados e servirão com aposentadoria, que segundo nossa ordenança são ordenadas. E porém mandamos a todos os nossos Corregedores, Juizes e Justiças, oficiais e pessoas a que o conhecimento deste pertencer por qualquer guisa que seja e esta nossa carta for mostrada que hajam daqui em diante os moradores na dita vila de Almeirim por escusados e relevados de todas as coisas sobreditas e cada uma delas, e os não costranjam nem mandem constranger, para ele em alguma maneira, porquanto assim é nossa mercê. Dada em a vila de Avis a 31 de Maio, Pedro Alvares a fez, de mil 1483. E eu Afonso Garcês secretário do dito senhor a fiz escrever, por seu mandado subscrevi.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Documentos da nossa história


Longe vão os tempos em que o fio de água que é hoje o domesticado e poluído rio Tejo saltava das margens.
Este documento mostra-nos uma ordem da Rainha regente D. Catarina, ordenando que o leito do rio Tejo volte a passar junto a Santarém.






terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Democratização dos documentos da nossa História


O nascimento de Almeirim:

Núcleo Antigo, fol. 103, microf. 6189.
Após fazer a enumeração das terras e localização, diz:…

O mui famoso e da louvada memória el rei D. João [I] havendo achado seus grandes desenfadamentos de caças e montarias na charneca de Santarém, desejou fazer casas da parte dalém do rio e de Alpiarça para sua aposentadoria, porque muitas vezes embargavam seu desenfadamento as águas das cheias do Tejo. Havido seu propósito, começou logo de executar a grandeza e magnificência que era fundada em fazer sempre grandes obras, mandou comprar por seus dinheiros todas as terras da vala que jazem dentro do termo das divisões e confrontações que d[el]as havemos. E parte dessas terras houve por escambo por outras que eram da coroa do reino, tudo isto a prazer dos senhorios, à boa-fé, sem enganos. Ora, tanto que as terras foram suas as mandou cercar por grossos e altos valos e por razão dos valos levou toda a terra de dentro deles, nome “a vala”. E porque a serra se chama de Almeirim lhe puseram o sobre nome “a vala d’Almeirim”, assim é chamada até o presente dia e por este nome intitulada. Acabado este, fundou o bom rei suas casas de aposentadoria dentro na terra da vala, que é um grande e nobre assentamento de paços, segundo dão dele testemunho seus edifícios com grandes salas, câmaras, retretes, varandas e outras muitas casas nos sobrados e térreas, e dos paços com crastas [ bem povoadas de laranjeiras e outras árvores, e ao redor dos paços un grande recoito de casas, e fora do assentamento dos paços outras casas a redor todas proprias del-rei sem algum (?) haver casa, nem outra herança, dentro da vala que del-rei não sejam, e outrossim dentro do assentamento dos paços uma capela [ ] em honra da Sra Santa Maria. A qual capela esse bom rei fez anexar e apropriar dízimos que dotam cada um ano, há-de haver de dentro das divisões da vala, consumado e outorgado por o santo padre, que nos diremos mais dotam o assentamento de Almeirim…


Mapa das chãs de Almeirim
Biblioteca da Ajuda cod.. 51-X-3


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Os 440 anos do rei D. Sebastião no Paço da Ribeira de Muge


Com a morte de D. João III, em 1557, a frequência do Paço da Ribeira de Muge, pela rainha D. Catarina e pelo rei D. Sebastião manter-se-á, como o provam as suas longas estadias nos paços de Almeirim.
Padre Amador Rebelo, 1532-1622, Relação da vida d’el-rei D. Sebastião, (em Francisco Sales de Mascarenhas Loureiro), diz-nos que em questões de preferência, em três lugares onde tinha seus paços reais, em que D. Sebastião costumava ordinariamente residir, era Almeirim o primeiro.

Muitas são as histórias do rei D. Sebastião nas caçadas, nas coutadas de Almeirim e da Ribeira de Muja, conforme documentos, e como o sugerem as fugas a sua avó durante as suas longas estadias nos paços de Almeirim. São conhecidas as várias histórias de quando adolescente, o Rei Menino, passou em Almeirim excelentes férias e muitas aventuras, de tal modo se apegou a esta sua Vila Real que, como nenhum outro rei seu antecessor, aí se demorou como soberano durante longos e frequentes períodos. No Paço se atinha e governava e nos campos e bosques monteava com destreza, por vezes não muito prudente.
Causando preocupações à avó, a rainha D. Catarina, se embrenhava nos matagais das coutadas de Almeirim e Ribeira de Muge. Aquela em que aos 11 anos se atreveu a varar um javali, salvando da morte o seu aio:
«Partido de Almeirim manhã cedo, D. Sebastião e a sua comitiva de caça, viram nascer o sol já avistado o Convento da Serra. Desceram no sentido leste, do Paço da Ribeira de Muge, eis quando, nas Ferrarias, se levantou um poderoso javali. Com decisão o rei apontou a choupa ao pescoço da fera e cravou certeiramente a arma entre o peito e a omoplata. Surpreendida, a fera ainda tentou morder os corvilhões do cavalo. Era o seu primeiro javali. Uma presa real. Refeita do susto, a comitiva cercou e cumprimentou D. Sebastião que ordenou que seguissem para o Paço dos Negros, onde se jantou*.» (Henrique Leonor Pina, op. cit.).
Dona Catarina conhecia bem o Paço da Ribeira de Muge. De uma vez, aos 17 anos, estava o rei D. Sebastião em Almeirim desde 21/12/1571. E como nos diz uma carta de 10/02/1572, do cardeal a Dona Catarina, passou alguns dias no Paço da Ribeira: «elRey meu sor esta muito bem. não se lhe deve dizer algua cousa que de algua sospeita. E elRey meu sor esta nos Paços da Ribeira e não a de vir senão amanhã a noite. E também esta para ir ver V. A. logo na entrada da coresma.» (A. Simancas, Estado, legajo 390, f. 88, citado em Joaquim Veríssimo Serrão, Os itinerários de D. Sebastião, 1568-1578).
  
* Ao jantar daquele tempo, cerca do meio-dia, corresponde hoje o nosso almoço.

De D. Sebastião se contam alguns casos bem estranhos. Ainda dos escritos de Padre Amador Rebelo, (idem), o caso do rei que mostrou ter “boa boca”:
«Aconteceu uma vez que estando em Almeirim, foi com a sua comitiva a monte ver se matava um javali, que lhe tinham emprazado. Havia mandado levar o jantar. Para não errar o lanço do porco, começou el-rei a correr após ele, e correndo por muito tempo, perdeu-se.
Não tomando o caminho, ele e um fidalgo que com ele estava, subiram a um monte, e avistando um pastor com suas cabeças de gado, este lhes indicou o caminho para Almeirim, longe que estavam. Como apertava a fome com el-rei, era tarde e não tinham jantado (almoçado), disse para o pastor, tendes aí um pedaço de pão que me deis? O pastor respondeu que só um muito duro e preto, que não é para vossa mercê, que não conhecia el-rei. O rei pediu que o partisse com ele, e o comeu com tanto gosto, que disse depois que nunca em toda a sua vida comera coisa que melhor lhe soubesse.»
As fugas nocturnas à avó, a rainha D. Catarina. O caso em que posto em cima de uma árvore, esperava um javali, viu um vulto, e descendo com pressa, investiu com ele, era um negro boçal** que tinha fugido:
«Saía de noite às dez horas a passear à praia só sem companhia, e no bosque de Sintra do mesmo modo. Esperava em Almeirim posto sobre uma árvore um javali, e aplicando a vista viu um vulto, e descendo-se com pressa investiu com ele: ao estrondo acudiram alguns monteiros, imaginando seria fera; acharam porém o Rei lutando com hum negro boçal, que havia largos dias que fugindo a seu amo habitava com as feras daquele monte.» (António Caetano de Sousa, Do rei D. Sebastião, cap. XVII).
Do livro, Paço dos Negros da Ribeira de Muge, A Tacubis Romana.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Para a história do desporto em Paço dos Negros

Uma recordação do Grupo da bola nos anos 50 em Paço dos Negros.
(muitos já desaparecidos)

Em pé: Vitor, Farinheira, Ma-olho, árbitro Julio Henriques, Mania, Saura, Berça, Vaqueiro e Pimenta.
Em baixo: Morais, Caneira, Tamanco II, Menino, Arsénio, Carneiro, Tamanco I, Bento?