A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os bobos da Corte


Naquele ano, os trovadores da Ribeira resolveram cantar as suas ancestrais trovas no Paço.
Mas na realenga vila, alguns habituados que estavam a só eles terem festa, ele eram caçadas, as canas, os torneios de canasta, os saraus literários, as procissões; no teatro eram as farsas, as comédias, não viram com bons olhos o aparecimento da nova trupe de comediantes. Que eram o fim das suas imitações e plágios, diziam.
Na Sintra de Inverno havia um bobo da corte, que de quando em vez trinava a erva-cidreira, combinou com um escravo que no Paço residia, e que de vez em quando era chamado à realenga vila, para a votação em carneirada, e à traição mudaram as fechaduras, para impedir que houvesse quem lhes fizesse sombra, que ninguém lha queria fazer.
Consta que o rei não gostou e intimou-os a que tivessem a porta aberta na hora do espectáculo no Paço da Ribeira, já programado pelos novos rapsodos.
Então, como tinham que abrir a porta, mas não queriam abrir a porta, em cima da hora, resolveram abrir sem abrir, assim como no conto, em que um tal João-Sem-Cuidados deveria, perante o rei, apresentar-se ao mesmo tempo, nem vestido nem despido, nem a cavalo nem e a pé, nem calçado nem descalço, eles foram pela calada da noite e abrindo a porta, deixaram-na fechada e às escuras.
Só que o assunto não ficou resolvido porque os novos rapsodos exigem ser tratados com a dignidade que merecem.
(Este conto remete para o ano de 1527, ao tempo de Mestre Gil, Qualquer semelhança com o presente é pura coincidência.)
Este cronista vai abrir um buraquinho da fechadura da porta e o leitor pode espreitar como decorreu esse espectáculo.

Clique para ouvir:






quarta-feira, 31 de março de 2010

A mulatinha

Hoje vou mostrar aos visitadores deste blog, pobre mas esforçado e livre, uma “nova” Canção. De algum modo uma reminiscência de vivências da escravatura em séculos passados. Com pequenas nuances na letra, foi recolhida junto de duas mulheres. Uma nascida e criada no Monte da Vinha, a outra nascida e criada no Pego da Curva, no limite da antiga Coutada da Ribeira de Muge. Ambas têm mais de 80 anos.
Aguarda para ser cantada e dançada pelo Grupo de dança da Academia Itinerarium XIV-Ribeira de Muge. Isto se os dois caciques-mores, os especialistas em mudar fechaduras e em Folclore de autor, o permitirem, claro.

Clique para ouvir: A mulatinha

terça-feira, 30 de março de 2010

O Folclore de autor de Almeirim

Uma brevíssima análise de conteúdo às letras de 24 modas cantadas pelo rancho folclórico de Paço dos Negros.


Algumas modas nos remetam para um momento de recordação de um passado que não está presente.

Minha terra antigamente...

Pensamos que uma canção folclórica é ela passado, e como tal deve ser rememorada, tornando presente, actual, esse espaço e esse tempo passados, no momento da representação. Quase como se fossem espaços e tempos sagrados.

Verifica-se que os termos utilizados revelam pouca antiguidade. Patenteiam grande parte ser termos correntes usados na linguagem de hoje. E as palavras significam também modos de vida. Repetem-se as palavras como Menina. Não aparece a palavra Cachopa:

Eu gosto de ti menina
Eu te faço a confissão
Se não te importasses muito
Davas-me o teu coração

Repetem-se as palavras Colega e Amigo. Não aparece a palavra Camarada.

Pois com esta não me vou calar
Escuta bem o que eu te digo
Gosto de cantar a teu lado
Como colega e amigo

Demasiados desafios e demasiadas vezes acabam estes desafios num acordo leviano:

Vou-te dizer uma coisa
Eu te explico a cantar
Vamos entrar em acordo
Iremos os dois casar

O teu coração é uma aventura
Vamos acabar com esta loucura

E com esta me despeço
Estamos só a brincar
Ficamos ambos amigos
Terminamos a cantar

Quase, ou não aparece mesmo, uma única metáfora, figura de estilo de que o nosso folclore é riquíssimo: Exemplo:

Ó roseira tu tens bicos
Talvez me queiras picar
Não te lembras ó roseira
Quando eu te ia regar

Do Vira da Tira, da Academia da Ribeira de Muge

Fui falar com a Criadora do Rancho, a Gina do Josué, essa GRANDE MESTRA DA DANÇA FOLCLÓRICA LOCAL, que me confirmou: sempre que nas suas recolhas de músicas e danças, as letras estavam incompletas ou não existiam, ela completava-as, ou compunha-as, inventando, tendo sido a autora da maioria das letras cantadas pelo rancho folclórico de Paço dos Negros.

Verifica-se assim, terem autor a quase totalidade das cantigas que são cantadas pelo Rancho Folclórico de Paço dos Negros.

Acredito que os dirigentes do Rancho nem tivessem consciência plena deste facto. Tal é a sua ignorância. Mas a partir de agora, sempre que o Rancho Folclórico de Paço dos Negros exiba o seu folclore de autor, é de justiça que se dê o seu a seu dono e digam que as letras são da autoria de Gina do Josué.

Os ridículos especialistas em mudança de fechaduras

No dia 27, ao verificar que não poderia dar a palestra, no Paço, para o que havia sido convidado, desconhecendo o que se estava a passar, fiquei preocupado pelos alunos e pelos professores.
Eis que surge o sr. Vereador da cultura da Câmara Municipal de Almeirim, que vinha fazer de porteiro, e confrontei-o logo ali, com o que me parecia uma cobardia e uma traição, pois para substituir o fiel depositário da chave, que estava autorizado pela Câmara, não era necessário substituir as fechaduras. Bastava dar uma ordem. Este, aqui, dizendo alguns palavrões, enervado, mostrou todo o seu autoritarismo.
Quero dizer-lhes daqui aos senhores porteiros, e outros, que o moinho tem duas portas e que só mudaram a fechadura a uma. Incompetência? Nem para porteiro presta.
Já agora aconselho-os, não mudem apenas as fechaduras, mudem também as portas, pois as que colocaram, de alumínio, em todo o complexo, deviam saber que portas de alumínio, em edifício quinhentista, se não são uma aberração, denunciam muito mau gosto.
É para impedir o nascimento da Associação Academia da Ribeira de Muge, que este indigno acto foi realizado. E prestam-se estes senhores da Câmara, a colaborar neste acto que envergonha a cultura de Almeirim.