A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O ritual da Adiafa na Ponte Velha

O ritual da adiafa constituía o comemorar de um fim de ciclo. Por vezes o fim de um longo período que poderia ser até bem penoso, mas que tinha o condão de transformar um espaço e um tempo profano de algum modo num tempo e num espaço sagrado, de festa, funcionando como terapia individual e colectiva, na cura dos males do corpo e do espírito.


Cantando e bailando, havia uma troca, ofereciam e recebiam: os efeitos de agradar, a protecção, a segurança: «O patrão dava (...) mas a gente tinha que lhe dar....». Os artigos que eram objecto de troca: Bolos e bananas; coisas boas e raras naquele tempo, as primícias. O doce do arroz doce. O pão e o vinho, com todo o seu simbolismo. O carneiro, sempre o carneiro, (numa região onde predomina o porco), o símbolo da oferenda a Deus: Abraão, a imolação de Isac. Não podemos esquecer que estes momentos eram sempre acompanhados de música e danças. Os cantares eram omnipresentes.

O nosso rancho/Vem a chegar/Saiotes feitos/Sempre a cantar.

Sempre a cantar/Desta maneira/Vimos trazer /A nossa bandeira.


Adeus ó patrão Manel/Mais a patroa Maria/Adeus até p´ro ano/Ou será para toda a vida.

J. Vitória uma das mulheres que viveu esta e outras adiafas: «No fim dos trabalhos havia sempre uma adiafa. O patrão dava a adiafa mas a gente tinha que lhe dar uma bandeira. Uma bandeira muita grande, carregada com bolos e bananas. O patrão dava a comida e o vinho. Era sempre batatas com carneiro. Na ceifa era arroz doce. Na monda era o carneiro.Fazia-se aquilo para agradar ao patrão. A gente dantes fazíamos tudo para agradar ao patrão».

Estas práticas, mesmo que perdendo o cunho sacrificial religioso, mas por uma certa solenidade posta nas atitudes e realizações, pelo simbolismo, a sociedade mantém a capacidade de transformação dos espaços e vivências.

Os capatazes oferecem a bandeira,1954


Ranchos da Ribeira de Muge

Rancho da Ponte Velha, monda do arroz,  em dia de adiafa - anos 50




sábado, 26 de dezembro de 2009

Arqueologias e barbaridades

De quando era jovem, eis o que nos diz um antigo jornaleiro, cavador, de Paço dos Negros, nascido em 1932, José Moreira Fernandes, de quando, cerca de 1950, andou a arrotear terra de arroz, no Arco, junto a Paço dos Negros:


«No chão, dentro da terra de arroz, estavam os prumos da ponte. A ponte saía para o lado da ribeira da Calha do lado esquerdo da ribeira (de Muge). A estrada que saía era a direito a subir o cabeço. Não ia pela borda da ribeira como vai hoje.
Depois é que fizeram a estrada mais dentro, pela borda da ribeira da Calha acima e depois para a Lamarosa, era pelo Arneiro Alto.
Tinha dois prumos, que era onde estava o tal arco. Mas o arco completo já não o conheci.
Estavam dois prumos em tijolo. Eu andei lá a cavar, a arrotear a terra. Andávamos a cavar para fazer terra de arroz. E era para escangalhar os tais dois prumos.
O capataz, que era o Navalhas, dizia para o Manel Rato: – Manda a enxada!
O Manuel Rato mandou a enxada, escangalhou a enxada. Partiu a enxada.
Era dois prumos que havia. Devia ser coisa antiga.»

Ao ouvir este relato, de pessoas que não sabem ler, nem escrever, veio-nos à memória a indignação de Mário Saa, porque um cavador, em Água Branca, ali ao cimo da Ribeira de Muge, porque sabia ler, «ao encontrar inumerável quantidade de moedas» … e «… bem assim uma prancha de argila, com inscrição, prontamente estilhaçada e dispersa pelo próprio jornaleiro que a encontrou… o qual, homem novo, sabia ler e escrever. (É incurável o mal da “barbaria”; não há letras que a extirpem!)».

Atreves-te, Mário Saa, a dizer que não tinha o direito de escavacar a inscrição de imediato a olho de enxada, só porque sabia ler!? Se tu visses o que por aqui se passa, não só não fazem, como impedem, até perseguem  quem o faz, até armam brigas a ver aquele que consegue destruir mais, e afirmam que sabem ler, que têm muitos poderes, até têm canudo e tudo; mais, até se afirmam defensores da cultura. Se visses, fartavas-te de rebolar no túmulo.


Pegão de Ponte "Romana" da ribeira de Muge.




Vista da saída da antiga ponte, sentido da ribeira




Vista do que foi a estrada, saída da Ponte,  no sentido da cumeada.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Curiosidades sobre o Paço dos Negros da Ribeira de Muge

Neste documento comprova-se que o Paço acabou de ser construído em 1514. Antão Fernandes que era escrivão no almoxarifado de Almeirim em 1514, em 1515 é o almoxarife da Ribeira de Muge.
Pelo tamanho das alcatifas, a maior deveria ter cerca de 20m2, pode inferir-se do tamanho do salão que a recebeu. Salão que existe no Paço. Assim haja vontade de o encontrar.

cc,1,16,93

retirado



Diogo Roiz                                                                               Antão Fernandes

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Aforamento de Paço dos Negros


Trecho da escritura de Aforamento de Paço dos Negros, acontecido nos anos de 1903 e 1904.

retirado


João de Oliveira Caniço, um dos pioneiros desse aforamento, nascido em 1864 e falecido em 1963.