A Ribeira de Muge fica situada na orla de um dos maiores desertos humanos de Portugal, a floresta de Entre-Muge-e-Sorraia. Esta região pode exibir ainda hoje uma cultura com traços característicos muito próprios, mormente a rude cultura dos pastores, cabreiros e dos negros que aqui habitaram. São estas especificidades que a Academia persegue, "subindo ao povo", como nos diz o grande Pedro Homem de Melo, recolhe, estuda e divulga.

sábado, 28 de novembro de 2009

A Rainha D. Catarina e o Paço da Ribeira de Muge

Contrariando os Bárbaros de Almeirim, os tais do poderoso lóbi do Restopórtico, o Paço da Ribeira de Muge, o único que se mantém teimosa e orgulhosamente de pé, no concelho, foi um dos locais preferidos da Rainha D. Catarina que, em meados de 500 passava longas temporadas em Almeirim.


trecho do doc, CC, 1, mac 84, fol.87

64.380 réis que fizeram de custo e despesa dos pastores das vacas e cabras da Rainha nossa senhora de 550.

Eu a Rainha, mando a vós Lucas Datença, que tendes carrego de meu tesoureiro, e a qualquer outro que ao diante tiver o dito carrego, que de dia de S. Miguel, que passou a 29 de Setembro deste ano presente de 1550 em diante, deis em cada um ano, a Estêvão Peixoto, almoxarife dos Paços da Ribeira de Muja, o dinheiro e coisas abaixo declaradas que lhe mando dar pela guarda e criação das minhas vacas e cabras que andam na dita Ribeira de Muja e de que ele tem carrego:

Para dois vaqueiros, de sua soldada, quatro mil e novecentos réis;
Ao maioral três mil réis, e ao rompeiro mil e novecentos;
E para seu vestido, mil e oitocentos réis, à razão de novecentos réis a cada um;
E para seu calçado mil seiscentos e oitenta réis, à razão de setenta réis por mês a cada um;
E para soldada de dois cabreiros, quatro mil e quinhentos réis:
Ao maioral, dois mil e quinhentos réis, e ao rompeiro dois mil réis;
E para seu vestido, mil e oitocentos réis, à razão de novecentos réis a cada um;
Para seu calçado mil seiscentos e oitenta réis, à razão de oitenta réis por mês a cada um;
E para mantimento dos quatro pastores e de uma escrava minha que lhe há-de amassar e lavar a roupa, cinco moios de centeio;
E para mantimento de seus cães, três moios de trigo;
E para mantimento dos ditos pastores e escrava, vinte alqueires de azeite e quatro milheiros de sardinha, e seis dúzias de peixe seco, e vinte cabos de cebolas e alhos;
E vinte e quatro varas de burel para cobertas dos ditos quatro pastores;
E vinte e quatro varas de almafega, para suas tendas;
E assim lhe dareis mais para mantimento das bestas de serviço dos ditos pastores, um moio de cevada.
E pelo treslado deste alvará geral e seu conhecimento....

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O Paço dos Negros e a Rainha D. Catarina

É ESTE UM DOCUMENTO QUE PROVA OS INTERESSE ECONÓMICOS DA RAINHA DONA CATARINA NO PAÇO DA RIBEIRA DE MUGE.

trecho do documento, CC, 1, mac 84, fol.65.

4 mil reis que deu a Estêvão Peixoto que se lhe deviam de um moio e 36 alqueires de cevada e palha e carreto em 550.


Contadores da minha casa mando-vos que por este somente sem mais outro mandado nem consentimento leveis em conta a Álvaro Lopes meu tesoureiro 4. 000 réis que por meu mandado verbal deu e pagou a Estêvão Peixoto almoxarife d’el-rei meu senhor dos seus Paços da Ribeira de Muja por outros tantos que ele despendeu em um moio e trinta e seis alqueires de cevada que comprou para as minhas vacas que traz na dita ribeira e assim no carreto da dita cevada e de certa palha que mandou levar para as ditas vacas e outras despesas miúdas que com elas fez e este não passará pela minha chancelaria. João de Seixas o fez em Lisboa a 4 de Junho de 1550. Manuel da Costa o fez escrever.
A Rainha

Que por este somente, leveis em conta a Álvaro Lopes nosso tesoureiro quatro mil réis que por mandado verbal de V. Alteza deu e pagou a Estêvão Peixoto almoxarife dos Paços da Ribeira de Muja, que os despendeu com as vacas que nela traz de V. Alteza segundo acima declaradas e que este não passará pela chancelaria.

A barbárie 2009 - aspecto actual do Paço da Ribeira de Muge




terça-feira, 24 de novembro de 2009

Um casamento na capela de S. João Baptista de Paço dos Negros

São inúmeros os casamentos que se realizaram na capela de S. João Baptista de Paço dos Negros, nos séculos passados. Dedicação de Capela até há cinco anos desconhecida, desprezada, transformada em celeiro, e que após um reboco, bem ou mal feito há dois anos, aguarda, vergonhosamente, por um telhado, prometido há muito pela Câmara Municipal de Almeirim. Espera-se que caia este Inverno?
Uma câmara que em alturas de eleições, num debate na rádio, “se gabou de nadar em dinheiro” e que o esbanja em Almeirim.





Documentos paroquiais, freguesia de Santo António de Raposa, Torre do Tombo, microfilme 1506.


Aspecto actual da capela

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Os galegos, os barrões, os bimbos, os caramelos, os ratinhos e os gaibéus




Um conto de Entre Muge e Sorraia, esta região tão deserta e tão desconhecida, zona de muitos caseiros, boieiros, cabreiros, porqueiros, onde este conto foi recolhido:
A primeira metade do século XX foi a época do pão. Semeavam-se extensas áreas de trigo em todas estas charnecas de Entre-Muge-e-Sorraia.
Mas como nessa época não havia foices caseiras que chegassem para ceifar tanto pão, vinham segadores de outras regiões do país, das Beiras principalmente e, a esses trabalhadores os de cá alcunhavam-nos de nomes vários: galegos, barrões, bimbos, caramelos, ratinhos, gaibéus.
Uma safra, um caramelo que veio a ser alcunhado de João Aldrabão, veio lá de cima ceifar para Vicentinhos, depois casou com uma cachopa que morava na Calha do Grou e foram morar numa barraca num vale que, por isso se passou a chamar “Caramelo”; já casou por pensar que assim se livraria da fome, e resolveu cá ficar para sempre.
Uns anos depois, veio um grupo de ceifeiros da terra dele e vizinhas, para ceifar trigo no Salgueiral. Por acaso o João Aldrabão foi parar a essa ceifa. Então, alguns dos mais novos já não os conhecia, começou a perguntar sobre a sua parentela.
– Eu xou filho da ti Ana Cancaburrana e do ti Jaquim Ripolecas – respondeu-lhe um dos galegos.
O João Aldrabão ao ouvir aqueles nomes, largou a foice, abraçou-se ao outro a chorar: – Atão tu éje o meu irmão Jéi, porque eu também xou da Murteirinha e também xou filho da ti Ana Cancaburrana e do ti Jaquim Ripolecas.
– Então o noxo pai? Como está ele?
– O noxo pai está no xemitério da Murteirinha.
– Então o noxo pai morreu!
– Ele não morreu, foi Deus que o matou.
– Xó xe foi à traixão! Pois que cara a cara Deus não era homem para ele, porque o noxo pai era mui valente.
– E a noxa courela? A têm xemeado de trigo?
– Xim. Ainda o ano paxado deu o mijaneiro da noxa mana Ana, três vezes rajinho.
– E a noxa mana Rosa, deve já estar uma mulherjinha…
Está mui valente, mas danhou-xe.
– Atão ela morde na gente?
– Não, mas começa a roncar como os porcos, agarra-xe aos homens que nem com um pau cheio de zagarrunchos xe dejapega.
Nesse grupo andava um ceifeiro dos Paços, de alcunha o Até Gozas, por sinal amigo de trunfar a cachorra; ao saber do parentesco do galego com o Aldrabão, a meter a pichinha, disse para o irmão do João Aldrabão:
– Ó gaibéu, ê tenhe ouviste dezer que bocêses qande vãim ceifari p’ó Ribateijo deixum a mulher intregue ó padre.
– Nã xinhor. A gente quando vem ó Ribatejo leva a mulher ó xapatero, e ele coge-lhe a paxaxa com uma linha de xapatero. E a ponta que crexe a gente mete-lha no cu.
– Ó raio!...
E o ribatejano gozão, queimou-se, até deu dois pulos: – Vá meter a ponta no cu dos filhos da ti Ana Cancaburrana!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O almoxarifado da Ribeira de Muge, cont.

Por mais que os que regem esta terra,  queiram fazer de conta que o Paço nunca existiu, logo não existe, ele existe mesmo.

Luis da Mota, terceiro almoxarife


Dom João etc. a quantos esta nossa carta virem fazemos saber que confiando nós de Luís da Mota, cavaleiro da nossa casa que neste nos servirá bem e fielmente e com todo cuidado que cumpre a nosso serviço e a boa guarda dos nossos Paços da Ribeira de Muja, e das coisas nossas que em este estão, querendo-lhe fazer graça e mercê temos por bem e o damos daqui em diante por almoxarife dos ditos Paços, assim e pela maneira que o foi Antão Fernandes que o dito ofício tinha e se finou e porém mandamos ao nosso contador de Santarém e a todos os nossos oficiais e para quem esta nossa carta for mostrada, e o conhecimento pertencer que hajam daqui em diante ao dito Luís da Mota por almoxarife dos ditos paços e o meta em posse do dito ofício e lhe faça entregar todas as coisas que em ele estão de que o dito Antão Fernandes tinha cuidado e lhe deixar o dito ofício servir e dele usar como havia por o dito regimento e provisão dele que o dito cargo tinha sem lhe nisso pôr dúvida nem embargo algum com o qual ofício queremos que haja de mantimento em cada um ano 8 mil rei e dois moios de trigo e dois moios de cevada que é outro tanto como sempre tinha o dito Antão Fernandes, segundo vimos por certidão da dita coutada de Santarém que proveu o regimento da carta (?) tinha e haverá o pagamento do dito dinheiro por esta guisa a saber: os ditos 8 mil réis no almoxarifado da dita vila de Santarém e os dois moios de trigo por a renda que tereis nos moinhos da dita ribeira e os dois moios de cevada que lhe damos para um cavalo que será obrigado a ter continuadamente para guardar a coutada da dita ribeira segundo o fazia o dito Antão Fernandes lhe pagará o nosso almoxarife d’Almeirim e mandamos os ditos almoxarifados tanto de Santarém como de Almeirim que lhe paguem o dito dinheiro trigo e cevada por esta só carta sem mais tirar outra de nossa fazenda e por o traslado dela que se registará em seus livros por os escrivães destes almoxarifados em seu livro mandamos que lhe seja levada em conta e ao dito contador que o fará assinar por o qual Luís da Mota jurou em a nossa cláusula aos santos evangelhos que bem e verdadeiramente serve o dito cargo e lhe fica registado de sua moradia e guarda que tinha em nossa casa. Dada em Lisboa a 30 de Maio, Pedro Fernandes o fez de 1522 anos.(D. João III, 51,126).

Assinatura indecifrada.